Novembro II

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Na quarta-feira, vou à psicóloga e digo que meus pais têm nojo de mim. Nenhum dos dois consegue estar no mesmo cômodo que eu — ainda estou surpreso por não terem simplesmente me expulsado de casa.

Helena fica chocada, apesar de fazer um esforço enorme para não demonstrar muitas emoções na minha frente. Ela me aconselha a mesma coisa que o Renan, a dar um tempo para eles, para que se acostumem e entendam que eu sou a mesma pessoa de antes...

Mas como vão entender se sequer pararam pra pensar nisso?

Minha sessão é finalizada uns dez minutos mais cedo, pois Helena pede desculpas dizendo que precisa buscar o filho no colégio porque ele está passando mal. Ela ainda me conta que o menino derramou tinta no seu notebook na noite passada e que isso a deixou completamente fora de si... Mas que não a fez amá-lo menos. São só momentos.

A psicóloga se despede dizendo que meus pais são como quaisquer outros, como ela até, e continuam me amando mesmo estando com raiva e decepcionados. Ela diz que o sentimento que eles sempre tiveram por mim não mudou, mas que eu preciso ser forte por nós todos pelo tempo que eles precisarem para enxergar isso.

Tenho lá minhas dúvidas quanto à qualquer uma dessas afirmações, mas não retruco. Quando saio, na salinha da inspetora encontro o Luiz Eduardo falando ao telefone. A secretária não liga a mínima para a nossa presença quando ele coloca o aparelho no gancho e me cumprimenta sem hesitar.

Saímos juntos e ele me diz que fez as pazes com o namorado.

Na verdade, pelo jeito que fala, parece que está me agradecendo por isso.

— Você ajudou. — Luiz encolhe os ombros, cutucando as unhas, olhando os pés dando passadas curtas ao meu lado.

Sinto uma onda de felicidade, mesmo que pequena, no meio da escuridão que é meu humor atual. Ele me olha de soslaio e acho que percebe que há alguma coisa fora do lugar, mas nada comenta.

— Acho que a gente tem que se ajudar — eu solto. — Já que somos minoria.

Observo os adolescentes conversando e rindo em grupinhos no pátio central do colégio à nossa frente.

— Nós não podemos ser os únicos... — ouço a voz dele desconfiada, tirando a mesma conclusão que eu.

Dou de ombros.

— Por enquanto, somos os únicos.

Ficamos um tempo naquele pensamento até que, das escadas, Renan aparece fazendo barulho, pulando os degraus e tirando os fones de ouvido gigantes da cabeça. Ele abre um sorriso enorme ao nos ver no corredor, cumprimenta o Luiz de forma engraçada e me lança uma piscadela.

— Vamos almoçar? Comprei salada de fruta.

Renan faz menção de continuar para a cantina, mas eu o seguro e entrelaço meus dedos nos seus. Ajeito o bracelete com a bandeira dos Estados Unidos no meu pulso e não deixo que me solte. Quero andar de mãos dadas com ele. Quero.

As sobrancelhas do Luiz sobem ao ver o ato, mas ele age naturalmente, fazendo com que o Renan também não se foque naquele detalhe. Nós três vamos andando lado a lado pelos corredores do colégio. Ninguém nos olha com menos que surpresa pela minha ousadia e, talvez, pelo trio inusitado.

Eu tenho vontade de gritar que é exatamente aquilo que eu quero.

***

Mariana é a primeira a comentar o fato de ter nos visto de mãos dadas — não só na quarta-feira, aliás, pois crio pequenas oportunidades durante o resto da semana para que possamos ficar mais próximos fisicamente, eu e o Renan. As pessoas parecem ter medo de tocar no assunto, mas ela chega perto de mim em sala de aula e diz que "achou bonitinho" quando nos viu juntos. Só isso.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora