Fevereiro I

134 21 3


Se minha mãe sabia da exata divisão de salas, ela não me disse. A julgar pela mensagem que recebi do Renan na manhã do primeiro dia de aula, a dele também não tinha repassado essas informações.

Renan Souza: Me encontre nas escadas. Não suba sem mim!

(segunda-feira, 06:38 am)

Renan mora praticamente do lado da escola, mas não sei como ainda consegue chegar atrasado! Era sete e quinze da manhã. Quase todo mundo já tinha chegado . Eu tive que dar "oi"s e "olá"s para os conhecidos que passavam, mas ninguém parou ou sequer me perguntou como eu estava, ou como tinham sido as férias... O Carlos reunira toda a atenção no alto da escada, é claro, e esse ano eu não estava ao seu lado, então isso queria dizer que não era digno de uma conversa.

Todos os outros anos eu permaneci com ele debaixo dos holofotes. Nunca tinha o visto por outro ângulo. Agora, porém, eu conseguia entender porque muita gente não gostava dele, ou de qualquer um sob o holofote.

Eu estava de fora, finalmente.

Também estava determinado a não esperar mais quando Renan entrou esbaforido pelo portão, quase tropeçando em uns novatos no meio do caminho. Sem fôlego, ele pediu desculpas, dizendo alguma coisa sobre carona com o irmão e acidente perto de casa... Enfim, subimos. As salas do terceiro ano ficavam no terceiro andar. Ele aproveitou o caminho para fazer o coração voltar ao ritmo normal enquanto ouvíamos o barulho indistinto das carteiras sendo arrastadas, os olhares do pessoal do primeiro ano, todos assustados, como cordeirinhos inocentes.

Engraçado, eu não acho que tenha sido assim para mim, mas vai saber que impressão eu passo para as pessoas, né?

– Cê já sabe em que sala a gente tá? – Renan perguntou assim que o final da escada ficou visível, indicando que estávamos chegando ao último andar.

– Não. Estava te esperando, esqueceu?

Ele soltou uma risada abafada e colocou a mão no meu ombro direito, usando do apoio para se alçar degrau acima, passando por mim. O corredor do terceiro andar estava quase vazio. Havia três portas, mas somente as duas primeiras estavam abertas. Lá no fundo, o laboratório de robótica também se encontrava fechado. O que será que fariam com a terceira sala?

Havia uma lista pregada no quadro de aviso bem no espaço entre as duas portas abertas. O papel branco estava dependurado, ultrapassando os limites do quadro de cortiça azul. No topo liam-se duas colunas com uma setinha indicando a porta de cada lado da folha:

<- SALA A                SALA B ->

Renan tomou a dianteira e começou a vasculhar a lista. Estava em ordem alfabética, não precisava ir muito longe para achar o meu nome, mas ele se demorou mais do que o esperado para verificar o dele. Como percebi que não anunciaria em voz alta o que acabara de descobri, o empurrei de leve para verificar a tragédia com meus próprios olhos.

– Eles não podem fazer isso... – eu o ouvi murmurar enquanto percorria os nomes impressos em preto. – Quero dizer, qual é o critério? Não faz sentido!

Assim que as palavras saíram da sua boca, a professora de química passou por nós no corredor e tomou a liberdade de parar e responde-lo.

– O critério, senhor Renan, é o desempenho e a produtividade em sala de aula. – nós nos viramos, meio encabulados, meio nervosos. – Não queremos negar a ninguém o direito de estar com aqueles que se identificam em se tratando de estudos e visões para o futuro, não é verdade?

Por um momento, percebi que a resposta da professora deixou o Renan ainda mais confuso. Quando as palavras dela fizeram mais sentido, a raiva também começou a transparecer, mas eu o segurei até que ela desaparecesse pela porta da "Sala A", ele então se virando pra mim:

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora