Novembro IV

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Como alunos do primeiro e do segundo ano, sempre assistíamos à Feira de Ciências com uma certa inveja do terceiro ano. Nossos trabalhos nunca foram tão legais ou apreciados — tá, tudo bem que no ano anterior nossas salas foram bem elogiadas. Construímos ecossistemas e brincamos com as forças magnéticas da terra numa bússola tamanho gigante, além de ter levantado discussões sobre outras fontes de energias renováveis, como a eólica. Nunca tive problema em fazer esses trabalhos porque a turma toda sempre pareceu bem empolgada de mostrar algo para os convidados que valesse a pena, já que a Feira é aberta ao pública e tal.

Mas, este ano, as duas turmas do terceiro se juntaram de maneira ainda mais harmônica e definitiva, eu diria. Depois da dinâmica do barbante, que já parece ter acontecido séculos atrás, a gente não percebeu o quanto estávamos unidos e o quanto isso facilitou nosso trabalho. Na sexta-feira anterior à Feira, porém, na nossa última aula de robótica do ano, o professor Tiago levantou essa questão ao nos mostrar o resultado do nosso esforço conjunto do segundo semestre.

Tínhamos conseguido montar um robô de um metro e meio, totalmente articulado e programável, com material reciclável e algumas pecinhas de Lego. E ele estava sendo exposto no pátio principal do colégio durante toda a Feira de Ciências, com direito a apresentações a cada uma hora e com toda a turma presente sendo aplaudida.

Até a diretora ficou boquiaberta com nosso feito, já que nenhuma outra turma tinha conseguido construir um robô tão grande e tão funcional quanto o nosso! Acredito que todo mundo estava sentindo aquela pontinha de orgulho, mesmo que não comentássemos sobre isso enquanto nos obrigávamos a explicar mecânica e eletrônica para quem quer que tivesse curiosidades sobre o robô — isso significa que fizemos isso pelo menos para todos os pais que estiveram presentes.

Menos os meus.

É. Meus pais não foram à Feira de Ciências do colégio, um evento que consideravam importante porque fazia parte da minha educação.

Confesso que fiquei tenso o dia todo, salvo em vários momentos de descontração e em que outras situações tomaram minha mente. Só percebi que eles não apareceriam quanto já estávamos no meio da tarde e eu sabia que não daria tempo de virem e voltarem antes do jantar...

Não demonstrei qualquer chateação com isso, contudo. Mantive o semblante de paisagem e segui em frente.

Todavia, o dia não teve saldo negativo, pelo contrário. Já começou com o Renan indo me buscar em casa, dizendo que de jeito nenhum ia me deixar ir de ônibus pra escola no meu aniversário. Ele levou suco, iogurte, pães de queijo e bolo para nosso café da manhã, coisa que o Rogério, nossa carona, não achou muito legal não.

— Se vocês derramarem qualquer coisa no banco do meu carro, vou fazer limparem com a língua!

Renan não se abalou e cochichou pra mim:

— Ele tá de mal humor por causa da ressaca — Rogério grunhiu alguma coisa no volante e nós dois nos encolhemos no banco de trás — E também porque meu pai pediu pra ele fazer sei lá o que hoje.

— E porque eu tô dando uma de motorista de taxi com vocês dois aí atrás! — o irmão mais velho do Renan grita para o retrovisor, fazendo-o rir.

Foi um café da manhã inusitado e cheio de palavrões, mas um dos melhores até então.

***

Não sei se alguém além do meu primo e do Renan sabem que é meu aniversário. Não comento muito sobre a data, e sei que meu único parente no colégio não vai dar a mínima para ela. Aliás, Carlos está se mantendo calado e arredio. Não conversa muito com ninguém, porque é só ele se evidenciar um pouco que alguém cita a coisa das drogas.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora