Fevereiro II

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Enviado em: segunda feira, 02 de fevereiro (23:41)

De: Daniel.henri.chagas@mail.com.br

Para: Sandy.wolliner@freetalk.us

Assunto: RE: News from the front

Wassup! (eu acho que nunca falaria isso, desse jeito, ao vivo...)

As aulas começaram hoje, oficialmente. Estou na sua sala, ou pelo menos no lugar onde era a sua sala no ano passado... Só que muitas coisas parecem ter acontecido desde então, porque não consigo reconhecer o cômodo como sendo aquele em que sua turma, sempre bagunceira e barulhenta, ocupou durante um ano inteiro.

A minha turma não é tão barulhenta; na verdade o som fica por conta só de um pequeno grupo, porque o resto da sala parece que não pretende ovacioná-lo em tudo, o que é ótimo. Meu primo já é inconveniente sozinho, fico feliz que a trupe que o seguia esteja diminuindo... Você sabe.

Sim, estamos na mesma sala esse ano. De novo. Nos re-dividiram, agora somos somente duas turmas de terceiro ano na escola. Mais de dez pessoas foram para outros colégios, então não sobrou muita gente. O Joel foi um deles, mas acho que o motivo é bastante plausível, certo? Não vamos perder o contato, porém, porque estamos nos falando pelo WhatsApp sempre que dá. Nos encontramos algumas semanas atrás, você sabe, então acredito que tenha sido boa, essa mudança de ares. Ele não precisa de mais dor de cabeça do que já teve, literalmente.

Essas mudanças não aconteceram só com a gente, os alunos. Quero dizer, acho que no fim das contas impacta todo mundo, nós inclusos. Do time de futebol oficial, sobraram somente eu, o Carlos, o Renan, o Felipe e o Caíque. O JV está do outro lado do mundo, como você se lembra, curtindo o intercâmbio. Ele me excluiu do Facebook, mas sei que ainda está vivo pelos comentários do resto do pessoal...

O Gustavo não apareceu no primeiro dia, e ouvi o boato de que os pais estavam tentando a transferência para um colégio "mais conceituado" do outro lado da cidade... Se ele conseguir, é menos um.

Já dá pra imaginar que esse ano não participaremos de qualquer campeonato intermunicipal, né?

Além disso, nosso professor de educação física, o Nasser, foi oficialmente afastado. Ninguém se deu o trabalho de nos contar, mas estávamos, eu e Renan, sentados perto da quadra descoberta na hora do almoço, comentando dessas mudanças, quando o jardineiro nos ouve falar dele, do Nasser. E solta:

– Ah, aquele lá não volta pra cá tão cedo... Coitado, ele até que era gente fina!

E nos contou que a escola estava tentando "tirar o assunto da mídia", porque até hoje a história do coma alcoólico do Joel do ano passado arrepia a espinha de todo mundo, principalmente dos pais. Não os julgo, mas entendo o "medo" de que isso possa acontecer novamente, e também por parte da escola, de perder toda a sua reputação por causa de um único "incidente", como eles costumam reiterar sempre que tem a oportunidade.

De qualquer forma, a situação não parece tranquila para nenhum dos lados, nem para o nosso, nem para o do Nasser ou da escola. E no meio disso tudo meus piores pesadelos se tornaram realidade: estou na mesma classe que o Luiz Eduardo. De novo. E o Renan está na Sala B, a dos que "precisam melhorar as notas, urgentemente", ou, como eles quiseram suavizar, a dos que "não têm o desempenho e a produtividade esperada pelo colégio".

Eu não sei nem classificar qual das duas coisas é pior: estar na companhia do meu primo, do Luiz e do namorado dele (sim, ainda tem isso!) durante mais de 50% do meu dia, ou estar afastado da única pessoa com quem consigo conversar abertamente naquele lugar. Eu disse, é um pesadelo. Consegue imaginar como está meu mundo sem você, Sander?

Pra completar, a mensalidade aumentou, os materiais também estão mais caros, e a pressão obviamente é aquela constante multiplicada ao infinito. No primeiro dia de aula já estão falando sobre ENEM, vestibulares e inscrição em faculdades. Nessas horas percebo que não sou o único completamente perdido nesse quesito, porque a cada vez que algum professor menciona a palavra "prova", alguém solta um gemido, ou se encolhe na carteira... Será que vamos corresponder às expectativas da escola de ter um índice de aprovação maior que do ano passado? Quanto foi, você se lembra? 99%? Acho até que só não foi 100% porque você não fez vestibular aqui...

Por falar nele, você vai voltar a estudar? Como estão as férias prolongadas, sua road trip? Vi que vocês já passaram por um monte de cidadezinha esquisita, tipo aquela que tem um centro comunitário em forma de chapéu de mexicano. Sério que as pessoas entram num lugar que tem o exato contorno de um chapéu?!

Vocês parecem estar se divertindo, mas eu, mais do que ninguém, sei que a vida por detrás das fotografias pode ser esquisita. Como estão as coisas com sua mãe? Ela parou de chorar ao telefone quando você ligava? E suas irmãs?

Eu vi, sim, que você e a Madison fizeram uma tatuagem, você percebeu meu comentário irônico na foto postada no Facebook... E acho que soou engraçado porque no e-mail você se dedicou a escrever um parágrafo inteiro pedindo desculpas e informando que era temporária e saíra na semana seguinte.

Eu sei que não estamos "competindo" em questão de amizade, mas você sabe, só espero que esteja usando o bracelete que me deu de Natal, senão faço questão de ir até aí e colá-lo no seu pulso. Permanentemente.

Sim, o Renan parece bem. Quero dizer, o suficiente. Eu sei identificar quando algo está fora dos eixos pra ele, sempre soube, só não sei como abordá-lo para uma conversa. Não sou bom em iniciar os assuntos, né, mas tenho a melhor das intenções.

E não, ele não está saindo com ninguém. Quando eu disse que ele estava "seguindo em frente", não foi nesse sentido. Tivemos uma conversa hoje sobre isso, entretanto, e acho que você teria ficado chateado de ouvi-la, mas ao mesmo tempo orgulhoso. Se eu tivesse raciocinado melhor na hora, teria gravado as palavras dele porque você precisa ouvir um pouquinho delas também: siga em frente, Sander. Isso não quer dizer esquecer, mas sim incorporar e... bem, seguir em frente.

Eu já espero o próximo e-mail cheio de sarcasmo e ironia porque, eu sei, quem sou eu pra dar um conselho desses, certo?

Pelo menos eu estou tentando. Pode não parecer, mas estou realmente tentando.

Aproveite sua viagem pelas terras do Tio Sam pra conhecer outras pessoas no meio do caminho. Pode ser bom pra todo mundo.

Acho que precisamos disso, que pelo menos a vida amorosa de um de nós três entre nos eixos de vez.

Com amor,

Daniel Henrique Chagas.

***

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