Abril III

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Acordei cedo na sexta do feriado. Meu pai aproveitou o tempo livre para fazer alguma coisa com madeira perto da piscina — não consegui identificar o que era até a hora em que estive presente. Na mesa da varanda de trás, latinhas de cerveja e carnes aleatórias em pratinhos. Minha mãe estava assando algo pro almoço e se alarmou quando disse que ia sair.

— Por que não me avisou antes? Essa costela vai demorar pra ficar pronta!

— Não tem problema, eu como qualquer coisa....

Ouvindo a conversa, o dono da casa cuspiu:

— Não tem que ficar babando ovo dele mesmo não, Neide. É só dar um feriadinho que já quer fugir das obrigações de estudar. — ele bebeu um último gole da latinha de cerveja e a arremessou rumo ao lixo da cozinha, errando. — O almoço sai na hora do almoço.

Na verdade, fiquei positivamente surpreso que ele só soltasse tal comentário! Digo, que me proibisse de sair e tudo. É claro que meu pai achou que eu fosse ficar em casa revisando matéria, como dos últimos feriados, mas eu escolhi boas palavras para contar que ia sair com o Joel, o garoto do coma, e o Renan, cujo irmão estava fazendo alguns contatos no tal festival. Esses pequenos detalhes ajudaram, eu acho.

— Não vou chegar muito tarde. — prometi, mesmo sem ter muita base pra isso.

— Vou passar um bife pra você... — minha mãe cochichou baixinho, mas eu a impedi porque sabia que o senhor dono da casa se irritaria.

— Pode deixar, mãe, eu como um miojo e tá bom.

Saí antes que qualquer um dos dois pudesse fazer outro comentário que fosse me desmotivar. Não estava com muita vontade de nada, essa é a real, mas por ter enfiado a cabeça nos estudos, e por sermos todos de salas (e escolas) diferentes, eu tinha perdido um pouco da proximidade tanto com o Joel quanto com o Renan. Meu subconsciente sabia que eu não queria afastá-los mais, então resolvi permanecer com o plano original.

Fui o primeiro a chegar e, como não podia entrar sem os ingressos que o irmão do Renan havia arrumado pra nós, fiquei esperando na entrada do estacionamento do shopping. O festival estava acontecendo num cantinho reservado ali. A decoração estava bonita e alternativa: caixotes de madeira, flores, bicicletas e placas de giz com caligrafia impecável. O ar meio bucólico, meio interiorano me passava tranquilidade.

Joel chegou uns dez minutos depois. Seus pais o haviam acompanhado, andando devagar ao seu lado enquanto o próprio se equilibrava na muleta. De short jeans, camiseta e um tênis qualquer, Joel não parecia se importar com a atenção que chamava por conta do estepe de caminhada, por assim dizer. Eu percebia alguns olhares, sempre percebi.

Ele me cumprimentou, os pais também, mas logo nos deixaram sozinhos, dizendo que iam dar uma volta no shopping e que, quando quisesse, era só chamar para irem embora. Joel tinha mesmo emagrecido, mas continuava com o corpo fora do dito padrão, quase o dobro do meu tamanho.

As pessoas que fogem do padrão tendem a chamar atenção, né?

Não tivemos tempo de conversar muito a sós: Renan apareceu logo em seguida, vindo de dentro do estacionamento mesmo, onde o festival acontecia.

— Cê já tava aqui? — Joel questionou, confuso.

— Já, vim mais cedo pegar os convites com meu irmão. — ele me olhou se soslaio, um cumprimento de cabeça um tanto quanto frio, eu diria. — Chegaram tem muito tempo?

Renan nos colocou pra dentro num piscar de olhos, apresentando um papelzinho carimbado. A parte fechada do estacionamento estava cheia de barraquinhas de doces em sua maioria, mas também tinha carrinhos de cachorro quente, batatinhas e outras comidas nada saudáveis, diga-se de passagem.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora