Abril V

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Minha mãe estava completando cinquenta e poucos anos. Ela é tão tradicional que não gosta nem que comentem a idade, então vou deixar no ar assim. Mesmo com a experiência de todos os nossos almoços em casa, ela ficou super nervosa por causa da pseudo-festa que organizou. Colocamos uma mesa enorme na varanda dos fundos, toalha branca, talheres do faqueiro novo que ela ganhou da assinatura do jornal, e pratos de porcelana da época do casamento com meu pai. Do jeito que ela queria: impecável.

Minha família por parte de mãe é quase inexistente. Meus avós são falecidos, nunca cheguei a conhece-los. Fazendeiros, algo assim, do interior de Goiás. Minha mãe se mudou quando pequena para o Rio de Janeiro com a irmã mais velha, que também já é falecida. Ela diz que tem um meio-irmão por parte de pai, mas como nunca foram muito chegados, não tem notícia alguma sobre seu paradeiro.

Ela se casou cedo. Acho que imaginava que era a única "salvação". Tem na ponta da língua até hoje o discurso de matrimônio como sendo aquela coisa mágica que só pode acontecer uma vez na vida, com a "pessoa prometida", aquela que vai te apoiar e proteger "pro resto da vida" e tudo o mais. Não sei se já chegou a sonhar com outra coisa que não ter uma família estável — se chegou, com certeza deixou isso pra trás para cuidar do marido. Meu pai sempre foi sua prioridade.

Não creio que ele vá deixar de ser, jamais.

Quando nos mudamos para cá, essa prioridade acabou incluindo a família dele também, porque foi ela que nos "acolheu", digamos, depois de um período conturbado... Mesmo que esse "acolher" venha acompanhado de um monte de detalhes sórdidos.

Minha mãe arruma a casa, faz esses almoços enormes, telefona todo dia para minha avó para falar do filho dela por causa dessas prioridades. E eles só conseguem retribuir fazendo fofoca e comentários que em nada agregam valor.

Mas isso sou só eu observando. Neide nunca diria isso. Ela fica grata por todo mundo aceitar o convite de ir almoçar na nossa casa porque se sente importante. Então, no dia do seu aniversário, é ainda mais importante que tudo esteja 110% perfeito. E não me deixa ajudar muito porque essa perfeição só ela mesma consegue atingir, sabe?

Eu tento, porém. Atendo todas as campainhas e acompanho todos os meus parentes até os fundos da casa: meu tio Wagner e minha tia Kenia, junto com meu primo Carlos. A irmã da minha tia Kenia, Luciene, vem junto com a filha mais velha, Beatriz, que deve ter quase trinta anos e é solteira convicta. Elas sempre aparecem nessas coisas de família como se fizessem realmente parte dela, e o Carlos parece estar indo com a Beatriz para as baladas, porque sempre têm assuntos em comum.

E também tem meu outro tio Gilson, irmão de criação do meu pai. Ele leva a segunda mulher, os dois filhos menores de doze, treze anos, do primeiro casamento, e a enteada, que já é casada e leva o marido e a bebê de um ano e pouco. A enteada tem uma amiga que parece grudada a ela e que também sempre vai nos nossos almoços, e agora está acompanhada de um namorado novo e  que já tem um filho de onze anos e também surge do nada na porta da nossa casa...

Minha avó liga, dizendo que não vai poder comparecer porque quer arrumar a casa, já que meu tio Wagner vai passar por lá no dia seguinte para fazer não-sei-o-quê. É claro que ele é mais importante que minha mãe, né, então ela obviamente aceita a desculpa esfarrapada.

Quando dou por mim, a mesa já está lotada e a algazarra já é audível da rua. Da janela da sala observo a casa do Humberto, namorado da Maria Eduarda, três andares de pura riqueza. Eles já reclamaram não uma, mas várias vezes da bagunça que meus parentes fazem... Torço internamente para que aquele domingo não seja mais uma dessas vezes.

A comida está muito boa, como todas as que minha mãe faz, e deve ter dado trabalho achar o filé mignon mais barato pra comprar, ou fazer milagre com o pagamento do meu pai para encher a mesa com os mais diversos acompanhamentos: batata recheada, arroz, vinagrete, salada com todos os tipos de folhas e legumes...

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora