Maio II

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Além dos trabalhos, as notas das nossas primeiras provas começam a chegar. Os simulados são corrigidos toda semana, mas ainda não valem nota real, por isso não estava me preocupando tanto com eles. As provas das matérias separadas, porém, valem. Fizemos algumas em Abril, mas só começamos a receber as notas nas primeiras semanas de Maio...

— Espero que esses trabalhos em grupo ajudem vocês a se recuperar, porque fiquei bastante decepcionada com essas pontuações... — a professora de biologia comenta enquanto vai passando de mesa em mesa na sala, entregando suas avaliações.

Quando passa por mim, ela me encara com algo no olhar que não sei identificar até ver a nota da minha prova.

4,5 em 10.

Veja bem: eu nunca perdi uma média sequer na vida. Nem quando estávamos no ensino fundamental, nem quando me mudei de cidade, nada. Jamais. Isso não combinava comigo e eu entendi perfeitamente que tipo de olhar a professora estava me lançando: pena.

A sala inteira começou a comentar os resultados, que não tinham sido bons pra ninguém, mas do meu lado esquerdo escutei o William responder à pergunta de alguém:

— Fiquei com oito...

Meu sangue ferveu.

Eu não acredito que tirei essa porcaria de nota!

Se meus pais souberem... se meu pai souber....

Com aquele pensamento me enchendo de pânico, dobrei a prova o máximo de vezes que consegui e enfiei no fundo da mochila, por debaixo de todos os meus pertences, planejando jogá-la fora assim que possível.

***

A segunda sexta de Maio teve como tema "profissões", por causa da feira organizada pela escola no sábado anterior ao Dia das Mães. A inspetora nos recebeu na portaria do colégio, comentando cada uma das nossas vestimentas. Eu tinha ido de carona com meu tio, que fez questão de arrumar um estetoscópio e um jaleco branco pra mim... Carlos estava de terno, numa incorporação tão fiel do seu pai que quase me fez vomitar.

Evitei comentar o peso daquele estetoscópio no meu pescoço, só aceitei e fui. O pessoal estava vestido das mais diversas coisas: de engenheiro à barman, de secretária à astronauta — sério, o Diego tinha colocado um aquário na cabeça e coberto a roupa de fita isolante prateada. Tava hilário.

— Quem disse que você vai ser médico?

Renan estava com um óculos escuro na cabeça sobre os cabelos castanhos desalinhados, shorts azuis, chinelo e uma blusa vermelha cavada escrito em branco "salva vidas".

Fiquei completamente sem palavras para a "fantasia" dele.

— Hein, quem disse?! — ele me cutucou, levantando as sobrancelhas. Balancei a cabeça.

— Aparentemente todo mundo.

Ele revirou os olhos, bufando exageradamente.

— Todo mundo menos você mesmo, né...

Encolhi os ombros, sem saber muito o que dizer. As inscrições para o ENEM seriam no final daquele mês já — era um comichão na minha cabeça, que coçava e doía ao mesmo tempo. Eu não sabia como acabar com ele...

***

Por sorte, nossos simulados tinham sido cancelados no sábado, mas isso também incluía os treinos extras que o Carlos havia nos feito fazer por conta própria. Estávamos ficando na escola praticamente todos os dias, o dia inteiro. Tortura, mas pra mim compensava porque me ocupava a mente e evitava que eu ficasse em casa e desse a oportunidade dos meus pais virem me questionar coisas da escola...

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora