Maio IV

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Enviado em: domingo, 14 de maio (20:34)

De: Daniel.henri.chagas@mail.com.br

Para: Sandy.wolliner@freetalk.us

Assunto: RE:Heart of nowhere

Sorry a demora em responder.

Às vezes o tempo passa rápido demais sem que eu perceba; em outras, um dia parece um século. Acho que estou vivendo tempos diferentes, mas tudo ao mesmo tempo. Isso soa muito esquisito, eu sei, e talvez você nem vá entender, mas deu vontade de escrever esse pensamento...

Eu concordo contigo. Sei que sou forte. Mas não sou eu que me coloco à prova; a provação vem todos os dias sem eu pedir.

Como sexta passada. Ao chegar da escola, meu celular vibrou com uma mensagem num aplicativo "daqueles"... Otávio. Fazia tempo que ele não me chamava, acho que estava esperando que fosse eu a procura-lo, como acontecia em boa parte dos casos. Mas eu não procurei, pode ser que ele tenha sentido falta, né? Mas respondi com um "não posso" em vez de pedir para me encontrar em um canto qualquer da cidade e me levar pro seu apartamento. Recusei, pela primeira vez, e por vontade própria. Eu não tinha nada pra fazer a não ser remoer as coisas do colégio, poderia sim dar uma desculpa qualquer em casa, mas não sei. Não sinto que daria conta... Há muito tempo não me sinto à vontade nem com vontade com ele. Não sinto falta do sexo. Na verdade, sinto menos vontade todas as vezes em que penso em ir para a cama com ele... Então mesmo que estar com Otávio me traga boas vantagens, digamos, preferi não me forçar. Fui forte o suficiente para constatar isso. Estou sendo forte nesse minuto, inclusive.

Também fui forte ontem, por exemplo, no treino de futebol. Carlos tem um novo seguidor fiel: Ítalo, do primeiro ano. Eu acho que deixei oficialmente de ser sua sombra, ou seu braço direito, sei lá, a analogia que quiser usar. O menino ri de todas as piadas do meu primo, só falta estender um tapete vermelho pra ele pisar... Tenho dó, porque ele claramente quer que os outros o respeitem, o vejam como um "ameaça", já que está ficando mais próximo do líder do bando do que qualquer um de nós...

Mas também consigo perceber o quanto ele é esperto. Carlos se forma esse ano. Ele terá deixado seu "legado" pra alguém, né, e quem melhor do que um aluno do primeiro ano que foi "treinado" diretamente pelo líder? Ítalo pensa lá na frente, em quando não estivermos mais no colégio. Quando ele poderá se autodeclarar o sucessor, sabe? É um pensamento que meu primo ainda não teve, ou teve e está justamente corroborando com ele...

Não vou saber dizer, já que não estamos nos falando tanto mais. Na verdade, nos falamos só na necessidade. Dentro do carro na ida pra escola, na frente dos nosso parentes, raramente na sala de aula, pois temos o Caíque e as meninas para interceder. Não, nós não brigamos de fato, mas ele não gostou de algo que eu disse na frente de todo mundo. Algo que o contradisse, eu acho. E ele não gosta que eu ande com o Renan o tempo todo, isso é mais que visível. O resto do pessoal brinca, faz piada de mal gosto, como sempre, mas o próprio Renan consegue se sair bem.

Mas o Carlos não. As brincadeiras não são suficientes, então é tratamento de gelo: nem uma palavra conosco.

No treino de ontem, Ítalo começou a fazer piadinhas homofóbicas. Do nada. Qualquer atitude besta era motivo para desencadear um comentário. O goleiro novo, João Pedro, não é dos mais atentos — na verdade, eu acho que ele tem um déficit de atenção dos fortes, mas isso é só fruto da minha observação. O fato é que se ele não se concentra o suficiente, ele não dá tudo de si. E ontem foi um dia particularmente ruim pra ele, porque não conseguia segurar uma bola sequer. Então o Ítalo começou a dizer que a mão dele estava quebrada. Sabe? Mão quebrada. Uma simples expressão foi responsável por gerar no menino uma série de piadinhas — se você não entendeu, foi mal, Sander, mas não vou te explicar o que isso significa. É ofensivo demais, idiota demais. Procure na internet, você vai encontrar.

João Pedro não parecia incomodado, mas me incomodou. E alguns já repararam nisso.

— Vixi, melhor você parar senão o Dani vai se sentir ofendido daqui a pouco! — foi o que o Felipe comentou, e claro que todo mundo caiu na risada.

— Quando a carapuça serve... — ouvi meu primo murmurando e batendo punhos com o Caíque, que concordava feito uma hiena.

Renan não estava por perto na hora, senão não sei o que ele teria dito. Ele anda sensível a esse tipo de coisa também, talvez até mais do que eu.

O resumo da obra é o seguinte: as coisas estão insuportáveis, mas eu consigo sobreviver a todas elas. Inteiro ainda. Está tudo no lugar. Por incrível que pareça, as últimas semanas me colocaram nos eixos de uma maneira que eu não sabia ser possível. As brigas pelas metades que tive com o Renan, a feira de profissões, o seu e-mail e suas mensagens um tanto quanto desesperadas no Messenger... Eu estou me encaixando no meio de tudo isso e descobrindo quem eu sou em cada uma dessas circunstâncias.

Eu sou essa pessoa que você disse aí; forte, fiel. Mas também sou aquele que se desespera de madrugada ao pensar que vai ter que encarar a escola onde ninguém me vê assim — ou talvez veja, não sei. Estamos aí pra descobrir isso também, né?

Enfim. Eu estou bem, vou ficar bem. Sei que você estará lá em qualquer um desses momentos, o Renan também. Eu quero que vocês estejam lá, não se preocupe. Como você disse, não sei se consigo viver sem isso mais.

Às vezes paro e penso como ler seus e-mails, ver as mensagens do Renan ou encontra-lo no colégio me dá força pra continuar. Não queria depender disso, mas sinto que, realmente, você usou a expressão certa: já não posso me dar esse luxo. Principalmente quando a única pessoa perto de mim (pelo menos fisicamente) que me apoia, que quer me ver de cabeça erguida e mentalmente bem é justamente ele, o Renan.

Estou pisando em ovos, porém. Não quero quebrar as coisas frágeis que a gente tá construindo.

Ps.: e não me venha dizer pra parar de frescura porque você não sabe o que é dar com a cara no muro

Ps².: procure o que significa isso também.

Com amor,

Daniel Henrique Chagas.

Ps³.: gostei da letra da música. Esses dias, quando estava voltando de carro da casa da minha avó, escutei uma outra que você não deve conhecer. É brasileira mesmo.

Tô tentando viver essa letra um dia de cada vez.

-x-

Irmão, você não percebeu que você é o único representante do seu sonho na face da terra?

Se isso não fizer você correr, chapa, eu não sei o que vai...

Eu sei, sei, cansa! [...]

Quem costuma vir de onde eu sou às vezes não tem motivos pra seguir.

Então levanta e anda, vai, levanta e anda.

Vai, levanta e anda.

Mas eu sei que vai, que o sonho te traz coisas que te faz prosseguir.

Então levanta e anda.

Vai, levanta e anda.

[...] Somos maior. 

Sonhar, seguir.

-x-



Essa é a única música em português que vocês verão em todos os três livros e ela é muito especial pro Daniel.

Espero que gostem e vai. Levanta e anda.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora