Fevereiro VII

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Quando o Carnaval chegou, meus pais foram convidados a passar uns dias num sítio alugado pelos meus tios, os pais do Carlos, mas o "dono da casa" negou que eu pudesse ficar sozinho, já que disse que não queria ir. Aproveitei a deixa para usar da desculpa que certamente seria aceita: eu tinha que estudar, é claro. Era a frase que meu pai estava esperando ouvir, eu sabia.

E daí veio o pequeno sermão:

– Tem que estudar mesmo. Não tem feriado esse ano pra você; é ano de vestibular, de faculdade! – ele bradou, concordando com meu raciocínio. Em vez de acabar por ali, porém, ele completou. – Seu primo não precisa dessas coisas porque já tem as costas quentes... Aquele ali vai passar em tudo quanto é faculdade que fizer, quer apostar? Mas você não. Tem que enfiar a cara nos livros mesmo, e isso é bom! Vai aprender bastante.

Claro que o comentário me gerou um pouco de revolta, mas respirei fundo e fui estudar como ele queria, trancado no quarto, fingindo muito bem que não ligava para como todo mundo estava aproveitando a juventude lá fora. A minha ia ficar trancada ali mesmo, entre as abas aleatórias do computador, os livros e as mensagens do aplicativo de pegação. Por incrível que pareça, eu estava sendo muito firme em negar todos os convites que recebia, mas não era só porque sair de casa seria problemático, e sim porque eu mesmo não queria. Não tinha a menor vontade de me encontrar com um desconhecido (ou semi-conhecido), e isso era bom, de certo modo.

Renan ainda me mandou algumas mensagens, me chamando para sair com ele, já que tinha ficado na cidade como previsto. Como era raro que fizesse isso, não viajasse nos feriados, ele estava mais entediado que nunca. Nesses momentos dava pra notar como sua situação familiar, o divórcio dos pais e tudo, mudou completamente sua rotina.

Renan Souza: Joel nos chamou pra ir na casa dele, comer, jogar videogame, coisas assim. Vamo lá? ? (segunda, às 13:25)

Sua última mensagem era essa, na segunda-feira de Carnaval. Estávamos de recesso escolar até a semana seguinte, mas eu já havia colocado em dia toda a matéria, feito todos os trabalhos extras e organizado toda a minha agenda de estudos – a prática leva à perfeição, é o que dizem, e prática quanto aos estudos deve ser o que mais tenho.

Então o tédio também me consumia.

Meus pais estavam descansando depois do almoço; eu conseguia ouvir os roncos do dono da casa, que também reclamara de tédio no dia anterior, já que não tinha ninguém da família por perto pra dividir suas cervejas. Pra não me deixar cair na tentação dos outros convites, se é que me entendem, resolvi tentar a sorte e, de fininho, chamei minha mãe pra fora do quarto para não acordá-lo. Engoli seco e, estranhamente um pouco envergonhado, disse que meus amigos haviam me chamado para ir até a casa de um deles. Tomei cuidado de enfatizar que era o Joel, o que estivera no hospital, todos esses detalhes, pra não parecer que eu estava simplesmente fugindo das minhas obrigações escolares.

Mas minha mãe é minha mãe: ela não questiona. No máximo faria isso se meu pai estivesse acordado, o que não era o caso.

– Vai, só não chega muito tarde porque hoje os ônibus estão em horário de feriado, é?

– Mas tudo bem mesmo? – lancei um olhar de soslaio para a porta do quarto e ela entendeu o questionamento, me empurrando com as mãos.

– Vai, eu me viro se ele perguntar.

Eu tenho dó da minha mãe, mas ao mesmo tempo sinto que ela escolheu estar onde está, completamente submissa ao meu pai. Pelo menos ela parece entender, lá no fundo, que eu penso diferente, mas mesmo assim faço as suas vontades. Pelo meu "bom comportamento", ela tende a me acobertar quando preciso de vez em quando. Não sei se isso valeria para todas as coisas – não faço ideia de como ela agiria se soubesse que a maioria das vezes que disse estar estudando na casa de um amigo nas madrugadas e fins de semana eram desculpas para, na verdade, estar no apartamento do Otávio.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora