Janeiro III

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Na penúltima semana de Janeiro, um telefonema do colégio colocou meus nervos à prova. Era a secretaria avisando sobre a reunião de início do ano letivocom os responsáveis , marcada para o dia seguinte. Foi o suficiente para meu pai já antecipar que eu precisava começar a estudar para o terceiro ano, que o mais precavido "sempre se saía melhor", e que duvidava que o Carlos não estava fazendo o mesmo...

Se eu mostrasse as fotos das baladas que meu primo compartilhava todos os dias nas redes sociais, será que meu pai só sorriria e diria que estava aproveitando a vida? "Como deve ser"? Porque se fosse comigo tenho certeza de que a reação seria o contrário.

– Já vai separando seus materiais, essas coisas. – ele mandou, os olhos grudados no jornal noturno de esportes. – Não vai perder o pique nesse último ano, hein!

Eu assenti, sem dizer coisa alguma, e me tranquei no quarto, fingindo que estava fazendo o que ele mandara. O computador na minha frente, porém, não mostrava nada relacionado à física ou matemática... Talvez um pouquinho de química e biologia, no meio das abas de site pornô que foram abrindo e que eu deixei aberto, mesmo sem muito entusiasmo nem para fuçar nelas.

Mais tarde, minha mãe veio me dizer a expectativa do dia seguinte: ela sairia cedo, porque a reunião era após o almoço, e aproveitaria para passar num supermercado mais barato no centro da cidade. Meu pai tinha finalmente repassado o dinheiro da compra do mês pra ela... No fim do mês, mas tinha.

– Eu posso ir junto. – disse. Não em tom de pergunta, só falei mesmo.

Minha mãe se virou pra mim com os olhos arregalados.

– Mas é claro que não, Daniel! A reunião é para os pais, as crianças ficam em casa.

Permaneci um minuto sem me mover, e depois só soltei um suspiro. Minha mãe quase sempre se esquece de que eu definitivamente já passei da infância, e tecnicamente já respondo por mim em todos os sentidos legais – afinal, eu já tenho dezoito anos. Ela poderia fazer as compras sem se preocupar com o horário, e eu poderia ir à reunião sozinho. Permiti que o assunto morresse, porém, e ignorei o aperto que me dava sempre que deixava isso acontecer.

***

No dia seguinte, foquei meus esforços em limpar a piscina, cortar a grama do jardim de entrada e até varri a garagem – essa última coisa não foi lá muito sensata, já que me fez ter contato com o vizinho da frente. Ele estava saindo de carro com o irmão mais velho, eu acho, e me deu uma olhada longa o suficiente para significar que se lembrava de mim. Ou que sabia alguma coisa sobre mim, algo do tipo. Aquelas olhadas que a gente dá para pessoas sobre as quais ouvimos fofocas maldosas, ou que sabemos o que fizeram no verão passado. Sabe?

No meu caso, talvez no inverno retrasado.

Eu ainda estava tentando me concentrar em alguma coisa que não fosse essa olhada inesperada na porta de casa, e também a volta às aulas, quando minha mãe chegou da reunião. Meu pai havia pisado em casa alguns minutos antes e, do meu quarto, o ouvi brigando porque ela tinha pego um ônibus e já se passava das oito da noite.

– Você sabe que andar nessas ruas aqui é perigoso! – ele ralhou enquanto eu descia as escadas sem fazer barulho. – Já te disse pra pegar o taxi! O que fez com o dinheiro que te dei?

– Guardei para uma ocasião mais necessária, não se preocupe. – ela tirou algo da bolsa que, do ângulo que eu estava, não consegui enxergar, mas imaginei ter sido o dinheiro. – Vim acompanhada de um vizinho...

Meu pai bufou, nervoso. Aquela não era a resposta correta.

– Um vizinho?! Veio sozinha com ele?

Terminei de descer as escadas e me fiz visível no corredor. A tática deu certo, já que minha mãe conseguiu se desvencilhar da fúria do "dono da casa" e veio ao meu encontro, falando por cima dos gestos dele:

– Daniel! Peguei sua lista de material; esse ano temos muita coisa para resolver porque você vai ter umas aulas bem chiques... – ela sorriu de lado e eu meio que a empurrei para a cozinha, servindo de escudo e fazendo com que meu pai voltasse para a TV.

Afinal, o lugar dela era na cozinha, e o dele era assistindo ao jornal esportivo ou ao futebol de fato.

Ajudei sumariamente a esquentar o jantar, mas meu foco voltou a ser o colégio e o tic-tac da contagem regressiva para voltar pra ele. A lista de materiais era grande e, com as novas aulas de robótica, teríamos que comprar um livro bastante caro para ser usado, além de contribuir financeiramente com a manutenção do laboratório. Em resumo, além da mensalidade ter subido, ainda haveria um acréscimo de uns 10% sobre o valor para custear as outras despesas. É claro que aquilo seria um problema.

É claro que meu pai agiria como se não fosse.

– Parece que muitas pessoas saíram do seu colégio... – minha mãe comentou, capturando minha atenção imediatamente. – Tinha poucos pais na reunião. Disseram que foi por causa daquele moço que entrou em coma... Qual era o nome dele? Você foi visita-lo, não foi?

– Joel... Fui, sim.

Eu tinha mencionado rapidamente que o vira na semana anterior, sabe, uma justificativa por ter chegado tarde em casa num dia de semana. Ela assentiu e continuou:

– E acho que foi por isso também que decidiram diminuir o número de turmas.

Diminuir o número de turmas? – franzi as sobrancelhas, sentindo meu coração acelerar.

Ela demorou um pouco para retomar o assunto, entre montar o prato que meu pai iria comer e separar os talheres.

– Pelo que me lembro, vocês tinham três turmas ano passado, certo? – afirmei, ela me fitou. – Diminuíram para duas esse ano.

Neide, cadê a janta!? – meu pai gritou da sala, fazendo meu coração pular pra garganta. Minha mãe saiu para servi-lo e me deixou sozinho na cozinha.

Tentei não pensar naquilo enquanto ela me mandava comer, tomar banho, ir verificar o preço do material escolar na internet... Tentei abstrair ao fazer as contas de quanto gastaríamos naquele começo de ano, mesmo quando ela me pediu para levar os números pro meu pai. Mesmo vendo-o franzir a testa e reclamar em voz baixa, dizendo que isso não era problema, só não queria que eu aparecesse com material de segunda mão porque isso não era coisa que filho dele faria...

Mesmo depois que ele e minha mãe foram se trancar no seu quarto para discutir o orçamento, me mandando ir dormir de uma vez porque já se passava das dez da noite... Mesmo com tudo isso na cabeça, a única coisa que eu conseguia raciocinar é que havia uma grande possibilidade de meu terceiro e último ano do ensino médio ser uma catástrofe verdadeiramente enorme o bastante para me fazer ter taquicardia e, eventualmente, com sorte, quem sabe, ter um real ataque cardíaco.

Afinal, eu tinha certeza absoluta de que não era tão sortudo assim. Aliás, minha sorte já devia ter se aposentado, isso sim. Consequentemente, sabia que eu também não conseguiria aguentar outro ano compartilhando da mesma sala de aula que certas pessoas. Não mais, não mesmo. Definitivamente.

Por favor, não! 

***

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Vejo vocês semana que vem (vou tentar postar pelo menos uma vez por semana agora no começo, ok?)!

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora