Março II

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A primeira coisa que notei quando o Renan clicou no "aceitar chamada" foi que a fisionomia do Sander tinha mudado bastante. Quando viera pro seu intercâmbio, ele tinha raspado todo o cabelo, mas não manteve o corte pelo tempo todo, então, no fim do ano, já víamos os fios crescendo de volta. Três meses depois e o cabelo já era bastante visível: castanho escuro, ondulado, irregular sobre as orelhas... Foi a primeira coisa que o Renan comentou, também.

– Vivi pra te ver de cabelo comprido! – o sorriso dele era muito genuíno, e o do Sander, com as covinhas, era pura vergonha. Ele elevou as mãos para abaixar os fios e notei o bracelete no pulso esquerda, a bandeirinha do Brasil balançando.

Meu presente de Natal e despedida. Fiquei feliz de ver que ele mantinha a promessa de usá-lo.

A segunda ou terceira coisa a ser notada era que nosso ex-intercambista não estava sozinho. A tela foi rapidamente preenchida por duas outras pessoas. Reconheci de imediato a menina sentada ao seu lado: cabelos volumosos, bochechas redondas, olhos esticados de gato. Madison, sua melhor amiga. Ela acenou fervorosamente quando ficamos visíveis no dispositivo deles.

Eu sorri, mas me senti um tanto quanto.... decepcionado, talvez. Não sei se era essa a palavra. Só pensei que seríamos só nós três, não a comitiva de viagem inteira.

– Ei... – as covinhas do Sander se afundaram quando ele soltou as duas letrinhas, escondendo o sotaque americano.

Ao meu lado, Renan se apoiou no joelho e respondeu um "ei" de volta. Madison ainda ficou acenando por um tempo até que o Sander brigasse com ela, em inglês, pedindo privacidade. Atrás deles, um garoto alto de cabelos negros deu uma risada e, nos cumprimentando brevemente, arrastou a menina pra longe. Kevin, eu reconheci, seu segundo amigo que estava na viagem.

Renan e eu ficamos um tempo aguardando o outro lado da conexão ficar menos bagunçado e estável, com Kevin e Madison saindo de cena batendo portas, e o Sander falando baixinho com alguém que estava fora do alcance da câmera. Então, uns bons dez minutos depois, ele se virou totalmente para nós, apoiando o celular, eu acho, em uma cadeira e se sentando no chão também.

– Pronto. – ele sorriu, as covinhas fazendo sombra no seu rosto risonho. – Agora sim. Desculpe por isso...

Renan riu e comentou algo que eu não prestei muita atenção. Minha mente voou longe e eu só conseguia pensar em como seu português ainda se mantinha, de certa forma, impecável pra quem tinha saído do Brasil há mais de três meses e não mantinha conversação alguma. A não ser comigo e com o Renan, por e-mails, por raras mensagens de voz, essas coisas.

– Daniel... – ouvi a voz do outro lado da chamada me convocando e percebi que os dois olhavam pra mim. Renan caiu na risada e o Sander acompanhou. Não entendi o motivo. – Em que planeta você está? Entendo que não esteja com saudades nem nada, mas podia fazer um esforço de fingir, né...

Ele riu, eu revirei os olhos.

– Você está com saudades, por acaso? – me fiz de ofendido. – Aposto que não tem tempo de pensar na gente, com todos esses lugares e pessoas novas que conhece a cada dia... Já deve ter esquecido da nossa existência...

Sander soltou uma risada alta e gostosa.

Eu estava... eu estou com saudades, percebi, me dando por vencido.

Saudades é uma palavra que só existe no nosso português. Eu não a usava com frequência, mas agora tinha noção do que significava: era aquele calorzinho no peito que machucava, queimava e doía, mas ainda assim fazia a gente sorrir.

***

Passamos uns quinze minutos só falando sobre assuntos aleatórios. Renan perguntou dos passeios, Sander contou alguns casos engraçados e fez a gente se inteirar das últimas coisas que haviam acontecido. Em determinado momento, ele disse que ainda estava no Texas, na mesma cidade da semana anterior. Era o maior número de dias que estavam passando num lugar só, nós reparamos.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora