Março V

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Me sinto exausto todos os dias que se seguem depois daquela sexta-feira da conversa com o Sander pelo Skype. Os sábados de simulados retornam e temos que estar no colégio às sete da manhã para fazer quatro horas de prova ininterruptas. Quase já não durmo; da sexta pro sábado então eu praticamente fico acordado vendo vídeos aleatórios no YouTube. E cochilo em cima da prova.

Porém, não tenho sono em casa; fico em alerta para a chegada do meu pai quando volto do colégio. Já é de costume "vigiar" seu comportamento perto da minha mãe, então me mantenho por perto e ajudo-a com os afazeres da cozinha, respondendo ao questionário diário sobre as minhas atividades curriculares. Eles parecem não notar minhas olheiras ou o cansaço porque as notas vem primeiro, é claro. É isso que interessa.

Na escola, contudo, fico procurando lugares pra sentar ou deitar escondido, pra ver se minha energia volta. Na maioria das vezes ela não vem e fico com a mente no mundo da lua durante as aulas. Forço a concentração, mas o que sempre recebo em troca são altas doses de dores de cabeça insuportáveis. Prevejo que as provas não terão resultado satisfatório e fico sofrendo por antecipação, o que piora tudo, no fim das contas...

Renan e eu não conversamos muito depois de tudo. Justifico meu silêncio com o cansaço e ele não insiste, apesar de estar sempre fisicamente presente. Senta-se do meu lado na cantina nos intervalos, também continua ocupando a cadeira perto de mim na mesa de Robótica. Anda do meu lado na entrada, nos encontramos na saída, dizemos um "tchau" e vamos cada um para o seu lado. As mensagens no celular diminuíram bastante também.

Nas duas sextas-feiras seguintes, temos de nos vestir de hippies e usar acessórios de praia. Na primeira, não faço esforço algum, pois a Natália faz questão de levar colarzinhos de flores e blusas bege para os garotos que simplesmente não deram a mínima. A maioria só colocou um chinelo qualquer e uma calça branca no máximo, as meninas usando brincos de couro e outras coisas aleatórias. No intervalo, percebo que o Renan também não fez muita questão, porque só está usando uma blusa branca sob o moletom do uniforme e os tênis costumeiros.

Ele sequer veio brigar comigo porque não "entrei no clima".

Já na segunda sexta-feira, Caíque vai de sunga para a escola. de sunga.

Sério.

Os professores ficam paralisados com a visão e, para sua sorte, a inspetora não estava presente no dia. Aproveitando, então, meu primo fica sem camisa no corredor, chamando atenção das meninas mais novas (e das não tão novas assim também).

A alegria deles não dura muito porque o professor de educação física reboca o Caíque do seu show de exibição e o faz vestir o uniforme do time, que fica com alguns exemplares guardados no almoxarifado do colégio caso a gente precise trocar. Caíque ainda leva uma advertência, e ele e o Carlos são chamados na secretaria para "uma conversa".

Daí acontece a primeira vez, desde o Skype com o Sander, que o Renan vem falar comigo espontânea e normalmente. Isso conta mais de duas semanas depois.

Estamos saindo para o intervalo do almoço e as pessoas da minha sala estão na maior algazarra, zoando o Carlos e o Caíque, que gostam da atenção, é claro. O Felipe, que é do time mas está na sala do Renan, aparece, se inteira da situação, entrando na bagunça.

Eu caminho um pouco atrás, rindo de vez em quando (porque está realmente engraçado ver meu primo ser encurralado por algo que fez errado, convenhamos), e, de repente, percebo algo sendo empurrado pela minha cabeça, indo parar no meu pescoço. Uma boia em formato de estrela, azul na parte de baixo e cheia de coisinhas coloridas na parte de cima transparente.

Renan está do meu lado, rindo também, usando duas boias nos bíceps, um óculos de natação com um cano de respiração no pescoço.

– Não é mais ficha limpa então, capitão?! – ele ri, batendo no ombro do meu primo um pouco adiante.

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora