Novembro VIII

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Enviado em: terça-feira, 20 de novembro (19:16)

De: daniel.henri.chagas.@ mail.com.br

Para: Sandy.wolliner@freetalk.us

Assunto: Thank You.

Eu percebi que sempre começo nossos e-mails com um pedido de desculpas, então dessa vez quero fazer diferente.

Quero começar te agradecendo.

Por muita coisa, na verdade, então não sei bem pelo que ou por onde começar. Talvez esteja fora de ordem, mas a intenção é só uma — e talvez esse e-mail vá soar dramático demais, desesperador demais, mas não é. Juro. Eu só quero dizer (no caso, escrever pra você ler quando tiver tempo entre dar atenção ao seu namorado novo e aos velhos amigos que deixou nas terras quentes do sul) (viu? Drama.).

Então, Sander Wolliner, primeiro quero agradecer por ter entrado na minha vida. Acho que tudo começou aí, quando te conheci. Você me abriu tanto a visão que eu tinha do mundo, das outras pessoas e, mais importante, de mim mesmo! Eu acho que não teria suportado a ideia de continuar sendo o Daniel Henrique se você não tivesse aparecido para sustenta-lo durante um ano inteiro em que passou do meu lado — e depois dele também, convenhamos, porque mesmo distante você ainda é minha base pra muita coisa. Mesmo não nos vendo, mesmo o contato tendo diminuído, eu aprendi que isso não quer dizer que o carinho diminuiu.

Na verdade, eu acho que gosto ainda mais de você aí nos Estados Unidos e de eu aqui, no Brasil, porque assim a gente pode falar essas coisas abertamente sem julgamentos, olhos enviesados e vergonha impedindo.

(Tá, eu sei, estou sendo exagerado para ser didático, como dizem os professores daqui. Há algum ditado aí assim também?)

Assim, quero agradecer por não ter desistido de mim mesmo que eu tenha, em algum momento, quase te obrigado a fazer isso. E mesmo que eu já tivesse desistido, você continuava me amparando, não me deixando cair de vez. Além disso, é bom ter a certeza de que, se eu tivesse caído de verdade, você também estaria lá pra me levantar.

E pra puxar a orelha também — você sabe o que isso significa, tenho certeza de que sua mãe aqui do Brasil já usou essa expressão! E você puxou a minha orelha quando devia, sem fazer rodeios ou hesitar. Eu sabia que merecia, mas se tivesse sido qualquer outra pessoa a mostrar essa autoridade toda sobre mim, eu teria ignorado completamente. Mas era você. E eu não podia te decepcionar (mais), então só abaixei a cabeça e aceitei.

Aceitei que eu precisava ser mais forte, mas também que não precisava ser uma pedra. Né?

Aceitei que eu tinha que levantar a cabeça, mas que isso não queria dizer que ela não deveria ser abaixada quando a situação pedisse.

Aceitei que os obstáculos estão sempre no nosso caminho, mas é escolha nossa tropeçar ou dar um jeito de saltar por cima.

Aceitei principalmente que eu não sou obrigado a me esconder, mas que ninguém também é obrigado a gostar de mim. Os que realmente gostam, ficam. Os outros é que têm que perceber que estão escondendo seus verdadeiros sentimentos.

Eu não preciso esconder mais.

Sander, eu acho que estou feliz. De verdade verdadeira. Não me lembro de nenhum momento até então em que eu tivesse convicção de falar uma coisa dessas — nem quando eu era criança, apesar de saber que "feliz" para um garoto de cinco anos é muito fácil de alcançar. Eu nunca pensei que fosse feliz, que tivesse condições totais pra isso, sabe?

Não, eu não estou totalmente feliz, mas estou só... feliz. A porcentagem de alegria parece ser bem maior que a de tristeza, numa visão geral, então eu consigo afirmar isso.

Meus pais não estão conversando comigo, mas eu ainda tenho uma cama para deitar à noite, um lugar para voltar depois que eu saio da casa da Renan... Mesmo que estejam ressentidos e decepcionados comigo, talvez eles ainda não estejam prontos, ou não querem, me excluir das suas vidas. Isso é o máximo que posso ter, eu acho, nas devidas condições.

O ano letivo está acabando e minhas notas estão satisfatórias — mesmo se não estivessem, o que conta é minha capacidade de entrar numa faculdade agora. E eu acho realmente que consigo, se eu quiser. Andei pensando sobre o assunto e a minha vontade de cursar um curso superior estava diretamente atrelada à de sair de casa. Como não preciso mais forçar essa última parte, porque ela também estava ligada ao fato de eu querer assumir minhas identidades, talvez a faculdade não seja realmente uma prioridade... Sabe? É como sua road trip.

Talvez eu precise de uma viagem assim também. Ou talvez não, não sei... Quem, afinal, sabe?

O que me acalma é a segurança da companhia que essa sim eu sei que terei em qualquer das escolhas que fizer.

Não conversamos definitivamente sobre isso, mas sei dos seus pensamentos sobre o assunto de tantos e-mails que tenho aqui com você me incentivando, então acho que algum dia vou perder a vergonha e esse sentimento esquisito de "traição" que me assola toda vez que eu menciono o nome dele com você... Porque eu tenho que mencionar. Talvez ele seja a parte mais importante nesse agradecimento todo.

Quero agradecer por ter se permitido se apaixonar pelo Renan, e ter feito parte da vida dele do jeito que fez. Acho que você mudou tudo pra nós dois, mas sei que pra ele foi algo muito mais "revelador", digamos, do que pra mim. Você mostrou pra ele que poderia ser quem ele quisesse, sem precisar do aval de alguém mais a não ser ele mesmo. Você mostrou seus sentimentos e ele aprendeu a respeitá-los e também a identificar os seus próprios.

Você despertou alguma coisa nele, e em mim, que talvez a gente jamais vai saber nomear.

O Renan é, sem sobra de dúvida, a pessoa com o coração mais aberto e receptivo que eu já conheci, e tenho fortes crenças de que você foi responsável por muita dessa vontade que ele tem de viver e não ter vergonha de ser quem é, e de acolher quem sente o mesmo. Por sorte, era ele quem estava lá, de braços abertos pra me receber quando eu comecei a me permitir também.

Eu tenho tanto a te agradecer por não ter nos deixado desistir de nós dois! Porque se existe algo hoje que me faz ser forte, levantar a cabeça, que me ajuda a saltar por cima dos obstáculos da vida, e que não me deixa esconder quem eu quero ser, esse algo é o que existe entre o Renan e eu. E eu só quero que isso continue existindo e que você sinta nada menos que orgulho do casal que ajudou a formar.

É isso, finalmente nós dois somos um casal.

Eu estou em paz.

Por último, mas não menos importante, obrigado pelas mensagens de feliz aniversário, que eu não respondi na hora, mas você sabe que eu estava ocupado porque o Renan te contou. E parabéns por oficializar seu namoro com o Zach; tenho certeza de que tudo já deu certo, né?

Obrigado.

Com todo o amor que não cabe em mim,

Daniel Henrique.



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Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora