Quando dei por mim, já estava atrasado para encontra-lo e fui de mãos abanando mesmo, com raiva por não ter pensado no presente antes. Fiquei de mau humor o tempo todo que estive com ele, o que só piorava minha frustração porque não queria passar uma má impressão. Era o último dia de estudos, já quena sexta ele não iria ao colégio (é claro) e os trabalhos deveriam ser entregues até domingo. Tínhamos poucas coisas para arrematar mas, como minha cabeça ficava voando para outra dimensão o tempo todo, é óbvio que ficou difícil terminar tudo sem que ele percebesse meu desconforto.

Lá pras cinco da tarde, quando já não conseguíamos produzir nada, e faltando quase um quarto do trabalho de física ainda por terminar, Renan recolheu suas coisas na mochila e se virou pra mim:

— O que há com você hoje?

— Nada. Por quê? — engoli seco. Saímos da biblioteca e fui guardando meus materiais na minha mochila também, mantendo minhas mãos ocupadas.

Renan revirou os olhos forçosamente.

— Ah, tá. Vamos voltar à estaca zero então.

Nos encaramos.

— Não sei do que você está falando.

Ele não pareceu contente com a resposta, mas em vez de insistir, Renan virou as costas pra mim e saiu pelo corredor.

Demorei um minuto para entender que ele não ia voltar e me pressionar até que eu dissesse algo que ele quisesse ouvir. A ideia dele praticamente me abandonando fez meu coração disparar, bombeando adrenalina à toda velocidade pelas minhas veias.

Corri atrás dele. Alcancei-o eufórico, já nas escadas. Segurei-o pelo cotovelo e, para meu contínuo espanto, o semblante do Renan não demonstrava coisa alguma. Senti meu estômago se embaralhando sozinho dentro de mim, as pernas tremendo sem saber se fora pelo esforço da corrida ou pela ansiedade que jorrava junto da adrenalina.

— Amanhã é seu aniversário — eu consegui dizer. Ele levantou uma das sobrancelhas, cético. Respirei fundo. — Não tenho um presente.

— E?

— E que eu deveria te dar um presente.

Renan suspirou, revirando os olhos e girando nos calcanhares pra ficar na minha frente no topo da escada. Estávamos sozinhos; a escola nas férias não atraía nem moscas.

— Já tínhamos combinado que você ia me ajudar na recuperação e que só isso tava de boa. Achou que eu não tava falando sério?

— E você acha que pra mim isso tá de boa? Isso não é presente de aniversário, Renan, fala sério!

Ele me encarou em silêncio por um momento. Larguei seu cotovelo, que nem tinha percebido que ainda estava apertando, e esfreguei minhas mãos suadas na calça jeans. Estava ventando frio e mesmo assim eu suava.

— Daniel, faz duas semanas que você vem ao colégio comigo quase todos os dias. — Renan começou, sereno. — Quantas pessoas você acha que fariam isso? Tipo, ir à escola nas férias para estudar e sem precisar? — ele levantou as mãos, como se contasse nos dedos, cínico. — Deixa eu ver.... uma....uma... é, acho que a contagem para no número um.

Meu corpo se acalmou quase que imediatamente depois disso. Renan ficou me olhando de perto, depois sorriu sem dizer mais nada. E eu acho que entendi.

— Ah, mas até eu passar na recuperação, você ainda me deve. — ele concluiu, piscando um olho na minha direção. — E se eu não passar, vou querer outra coisa sim.

Eu soltei uma gargalhada, me dando por satisfeito.

***

Na sexta-feira, a primeira coisa que fiz ao acordar foi mandar uma mensagem de aniversário para o Renan. Ele não me respondeu porque ainda era cedo, acho, mas a réplica veio na hora do almoço com uma foto de um bolo de chocolate fincado com duas velinhas, indicando o número "18".

Aprendendo a Gostar de Você {Aprendendo III}Onde as histórias ganham vida. Descobre agora