Capítulo 63 (Dia 16)

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Fronteira | 15 ºC
Contagem regressiva: 3 dias

Estamos isolados.

Passamos a manhã esperando o carro da Resistência aparecer e levar Matt e Vitor para procurar o último lugar do antídoto e eles não vieram. O diretor do hospital também não apareceu, por isso, a Anna continua conosco, era ele que a levaria embora. Ela não parece preocupada, diz que ainda tem uns dias de folga, mas precisa voltar para tomar o antídoto daqui a dois dias.

Olho para o temporal que parece ainda mais forte que ontem e não tenho dúvida que este é o motivo de eles não terem vindo. As ruas, na parte baixa da Fronteira, devem estar alagadas. Algumas estruturas desabam, árvores caem com a força do vento, pelo menos foi isso que disseram para o Nathan e Matt antes de nos trazerem para cá.

E para piorar a situação, não temos telefone aqui, este não é um abrigo preparado como os outros. Estamos completamente incomunicáveis.

Armon ligou a televisão na sala principal e, depois de alguns minutos assistindo, percebemos que nada tinha mudado. Os mesmos anúncios, as mesmas ameaças, nada do Gabe.

Encaro o mapa que eles estão montando em cima da mesa esperando que ele possa nos ajudar.

— Preciso falar com o Vitor — Matt fala depois de ter uma conversa em particular com Nathan.

— Eu vou chamá-lo — ofereço-me sem dar chance para mais ninguém fazer o mesmo, preciso andar um pouco. Ele está no andar de baixo com o Kyle, precisamos saber se os carros chegarem. Olho para o Lucas que conversa com Armon e Anna e respiro fundo. Só desvio o olhar quando sinto o peso dos olhos do Nathan em mim. Ele me encara por um segundo e então vira os olhos para onde eu estava olhando.

Depois de ontem, preciso não deixar a minha preocupação tão visível para ele. Eu não posso ser outro problema.

Pego a minha xícara de chá e caminho pelo grande corredor. Mesmo que esteja nublado, o pouco de luz que entra pelas janelas de vidro deixa o ambiente menos deprimente. Era horrível estar naqueles lugares fechados iluminados apenas por luzes artificiais.

Aperto o botão do elevador e dou mais um gole antes de ele chegar. Alguns segundos depois a porta se abre no andar debaixo.

— Está maneira — ouço o Kyle falar. Vitor está de costa para ele levantando a camiseta.

— Vitor, o Matt está chamando você — interrompo e os dois se assustam. Estavam tão distraídos que não ouviram o elevador chegar. Vitor abaixa a camiseta e posso até dizer que ele ficou um pouco corado.

— Eu estava mostrando a minha tatuagem para o Kyle — diz sem jeito.

— Tentando enganar a Emily, Vi? — Kyle fala e o Vitor apenas ri para ele.

Ele vai embora enquanto se insultam em uma estranha demonstração de carinho, eu acho.

— Veio pegar um ar ou ficar um pouco longe da Anna? — Kyle pergunta sem cerimônia.

— Ela não me incomoda mais — respondo sentando-me em um banco. — Mas não consigo ficar parada olhando para aqueles mapas. — Tiro as luvas para sentir o calor da xícara nas mãos e tomo mais um gole. — Posso te fazer uma pergunta, Kyle? — indago fazendo-o desviar os olhos da pequena fresta na porta e olhar para mim.

— Acabou de fazer — diz e dá uma risada no final quando jogo uma das minhas luvas nele. — Desculpa, não resisti. O que você quer saber?

— O que foi que aconteceu com a Gi?

Caminho na direção dele que se afasta da porta me dando espaço para olhar.

Coloco o pé para impedir que o vento forte a abra. O temporal está tão forte que mal se consegue ver a estrada. O céu está escuro e a ventania balança com violência as folhas das árvores. Mesmo só com uma fresta estreita aberta, as gotas geladas entram e me molham um pouco.

A Resistência | Contra o Tempo (Livro 2)Leia esta história GRATUITAMENTE!