Capítulo 24 (Dia 5)

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Setor 7 | 13 ºC
Contagem regressiva: 14 dias

Tento descansar, mas tudo o que o que aconteceu desde ontem, principalmente a conversa com o Kyle, continua passando na minha cabeça e não me deixa dormir. Rolo de um lado para o outro até desistir de tentar pegar no sono e me levanto, mesmo me sentindo exausta. Vou até a janela manchada e parcialmente coberta de musgo e vejo o manto verde de eucaliptos e pinheiros que se estende até o horizonte.

Não é diferente da vista que tínhamos do Setor 6, já que estamos longe do centro urbano do Setor onde eu nasci. O máximo que pode ter aqui perto é alguma fábrica como aquela em que a minha mãe era explorada.

Só de me lembrar de que estou no Setor 7, as lembranças do passado surgem fazendo o meu coração se apertar. Mesmo sem querer, milhares de imagens boas e ruins passam pela minha cabeça.

Fecho os olhos imaginando como seria bom sentar na mesa para tomar chá com a minha mãe enquanto ela me ajuda a entender tudo o que estou sentindo. Seria tudo tão mais fácil se ela tivesse aqui, se o meu pai tivesse aqui. De repente, sinto uma vontade incontrolável de voltar à minha casa, mesmo sabendo que eles não estão lá. Eu só queria poder senti-los de novo.

Quando sinto as lágrimas começam a queimar nos meus olhos, resolvo sair e dar uma volta pelas instalações. A saudade deles me provoca dor física e eu tenho medo de começar a chorar e não conseguir mais parar.

Fecho a porta com cuidado para não fazer barulho e caminho devagar pelo corredor até chegar à sala principal. Observo algumas pessoas sentadas nos sofás, cumprimento com um gesto de cabeça quando me olham e sigo em frente.

Encontro outro grande corredor, e ao olhar através das portas abertas, vejo que não são quartos, mas salas, algumas vazias. Quando a dor na perna começa a incomodar eu paro em uma das janelas e me apoio no batente sustentando um pouco do meu peso.

Não sei quanto tempo se passa até ver Lucas e Armon caminharem na minha direção com algumas pessoas que não conheço. Vejo Nathan e Matt logo atrás.

— Emily. — Um senhor me cumprimenta com um sorriso. Corrijo a postura e me afasto da janela para apertar a mão que ele estende para mim. — É um prazer finalmente conhecê-la pessoalmente. — Sorrio sentindo o rosto corar. — Perdão, eu me chamo Marco.

— O prazer é meu. — Respondo.

Noto que as outras pessoas que o acompanham me olham como os Puros me olhavam. É estranho receber esse olhar de pessoas do meu Setor, afinal, nunca deixei de ser uma deles. Mas eu as compreendo, a minha passagem pela Matriz e o meu relacionamento com Nathan deve ter feito eles me enxergarem de forma diferente.

— Por aqui. — Lucas diz e nos encaminha para uma sala preparada para reuniões.

Enquanto eles se distribuem entre as mesas e cadeiras, meu coração acelera vendo o Lucas vindo na minha direção. Respiro fundo para controlar o nervosismo, quase não falamos depois da nossa discussão de ontem.

— Aconteceu alguma coisa? — pergunta preocupado. Abaixo um pouco a cabeça quando vejo o Nathan olhando para nós dois, mas isso faz uma mexa de cabelo cair nos meus olhos. Antes que eu possa tirá-la, o Lucas a coloca atrás da minha orelha, tocando o meu rosto de forma delicada.

— Está tão visível assim? — devolvo a pergunta tentando fazer a voz não tremer, mesmo que eu saiba a resposta que ele vai me dar.

— Eu conheço você — diz o que eu já esperava sem desviar os olhos dos meus. Nem se a minha vida dependesse disso eu conseguiria esconder algo do Lucas. Eu não consegui quando era a vida dele que estava em risco.

A Resistência | Contra o Tempo (Livro 2)Leia esta história GRATUITAMENTE!