26a. Aty guasu, a reunião do conselho (parte 1)

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Quando perceberam o que realmente tinha acontecido com a pequena Amandy, e de que ela tinha sido raptada e estivera nas mãos de um dos terríveis irmãos lendários, Jasy Jaterê – pelo menos era o que tudo indicava –, e que a outra filha, Porasy, provavelmente era prisioneira de dois deles, a família e amigos se mobilizaram. Os vizinhos, que ajudaram antes a procurar Amandy, foram chamados de volta, jovens e adultos foram acionados, e um recado foi enviado rapidamente ao Capitão da Aldeia Pirakuá.

O capitão, por sua vez, assim que soube da convocação de Itabira e Dhiacuí, foi atrás de pessoas específicas, e de sua confiança, que também avisaram outros amigos e assim, não demorou muito para que todos chegassem à casa de Itabira. O capitão estava acompanhado com os homens que o ajudavam na aplicação da ordem, disciplina e justiça da Aldeia.

Os Hexakáry, caciques e xamãs da aldeia, também foram convocados. A convocação destes era, talvez, a mais necessária. Eles eram os detentores do conhecimento do mundo espiritual, aqueles que falavam e lidavam diretamente com os Donos, os que tinham posse das rezas sagradas, que viam além, e tinham conhecimento dos deuses e seus patamares de habitação. E eram eles os que – pelo menos era o que se esperava – sabiam mais sobre os sete monstros lendários.

Claro que as mulheres não ficariam fora dos acontecimentos. Ainda mais algo dessa proporção. Então, passando de casa em casa, convocando as parentas e amigas, animando as filhas, logo um grande número delas se movia pelos caminhos entre matas, colonião, atravessando os córregos e, até o rio. Tornou-se necessário um local maior para a reunião, e este foi logo definido: a escola da Aldeia.

Assim, em pouco mais de meia hora, talvez uns quarenta minutos no máximo, praticamente todos os moradores da Aldeia Pirakuá se encontravam reunidos no pátio da escola onde os pais de Porasy lecionavam. Todos falavam ao mesmo tempo, e quase ninguém se entendia. A maioria nem sabia exatamente o porquê de estarem ali. Então rapazes vizinhos, a pedido talvez do líder político da aldeia, trouxeram um microfone e uma caixa de som, instalaram e conectaram os aparelhos, e passaram para o Capitão, em seguida. Com o devido uso dos instrumentos, e com voz alta e forte, o capitão pediu a atenção de todos e a ordem foi instaurada, se obtendo um relativo silêncio.

— Agora é com vocês — o capitão falou para Itabira e Dhiacuí, encerrando sua parte na fala inicial. — Expliquem para todos o que está acontecendo.

Os pais de Porasy fizeram uma explanação rápida onde expuseram o que de fato sabiam, sobre os acontecimentos: a pequena Amandy estivera desaparecida – o que todos já tinham conhecimento de antemão, pois vários deles haviam ajudado na procura dela – e alegara, ao voltar que estivera na caverna do Bicho Papão e da Cuca com o garotinho loiro que estudava na escola.

— O fato novo é que a desaparecida agora é Porasy — falou por fim Itabira. — E de acordo com os relatos de sua irmã mais velha, do primo Thomas e das amigas que estavam com ela no momento do desaparecimento, ela foi capturada por Jasy Jaterê e Kurupi.

Ao fim dessa declaração, tornou-se impossível Itabira continuar falando. Um momento de confusão e fúria se instaurou. Cada um falou alguma coisa. Alguns ficaram do lado da família e culpavam os monstros lendários, outros disseram que Porasy tinha a sua parte de culpa, por andar na aldeia sozinha. Mas então foi explicado que ela não estava sozinha e todos entenderam por fim que havia testemunhas do rapto.

A partir daí não foi preciso muito mais para que todos os terríveis acontecimentos dos últimos tempos em Pirakuá, e região, fossem atribuídos aos sete monstros lendários, os deuses monstros filhos de Tau e Kerana.

Os frequentes raptos de meninas adolescentes – que na maioria das vezes nem tinham sido raptadas –, foram atribuídos a Kurupi e também cada uma das violações sexuais. Cada menina que tinha perdido a virgindade fora do casamento e que não tinha uma explicação plausível para dar aos pais, ou tinham medo de contar a verdade, ou mesmo dar uma explicação adequada, ou das quais se envergonhavam foram declaradas encantadas por Kurupi.

Os tantos roubos e desaparecimentos de diferentes objetos foram atribuídos, todos eles, a Monhãi. As muitas bicicletas, os celulares, as roupas e tênis. Tudo que antes atribuíam a gangs, usuários de droga, a ladrões; todos os roubos foram relembrados e Monhãi recebeu a culpa. As pessoas se lembraram, como por mágica, de como os roubos aconteceram, contando sobre o momento, a maneira da ação do monstro serpente, a magia paralisante aplicada por ele.

Havia também as invasões e ultrajes dos cemitérios, que por vezes apareceram com sepulturas violadas e abertas, com ossos retirados dos locais onde tinham sido enterrados. Esses fatos foram atribuídos a Luison. Afinal, quem mais poderia ser? Quem desenterraria mortos e retiraria corpos de seu lugar de descanso eterno?

Muitas crianças tinham se envolvido em desaparecimentos rápidos, nos últimos tempos. E cada uma das mães e pais, reunidos naquela escola, tinham alguma lembrança de um fato assim. Então vários deles contaram de momentos em que algum de seus filhos menores desapareceram por algum tempo e depois reapareceram sem conseguirem explicar onde tinham ido. Ninguém dizia mais ter sido somente travessuras dos pequenos, que saíram para brincar e se atrasaram para voltar, ou esqueceram das horas determinadas pelos pais. Todos os rápidos desaparecimentos de crianças foram atribuídos a Jasy Jaterê e às suas escandalosas travessuras.

Havia muitos relatos de perseguições, a humanos, de manada de animais desconhecidos nas colinas. Praticamente todos os ataques foram atribuídos, naquele dia, a Ao Ao e seu bando de filhos selvagens. Muitas ofensivas desses animais desconhecidos terminaram com morte de pessoas. Todas elas foram então conferidas aos rituais antropófagos de Ao Ao e sua manada de filhos. Se fosse possível prestar atenção nas diferentes falas, se ouviria várias citações em que as pessoas perseguidas se abrigaram em Palmeiras Pindó, para se salvarem das feras.

Os sons noturnos e diurnos desconhecidos, os grasnidos todos, foram atribuído a Mbói Tuí.

As pessoas falaram de fogo visto de longe em cavernas, onde – agora sabiam – se escondia a criatura. Se o famigerado Teju Jagua, criatura habitante de covas cercadas de fogo, já inspirava superstições antes, agora então tudo se encaixava. Os tantos incêndios que apareceram e cresceram nos matos, destruindo roças e casas, formando muradas incontroláveis, tudo tinha sido provocado por ele, por seus terríveis olhos que expeliam labaredas.

Todos tinham histórias de locais onde tesouros estariam escondidos em buracos sob a terra. Localidades onde Monhãi acumulava o produto de seus roubos e pilhagens, e onde nada, nem ninguém, se atrevia a estar. Ninguém mais, por meses e anos, se animava a cruzar os montes, por temor a Kurupi. Histórias diziam que o atrevimento de caçadores, que buscavam sustento nos igarapés, foi castigado com a morte por Mbói Tui, o protetor dos anfíbios.

De repente, as rivalidades – até as mais antigas –, provocadas por tantos confrontos, e que eram consequência de um culpar o outro, dentro de famílias irmãs, tudo foi sendo aplacado, acalmado. Não se dizia mais da culpa humana de cada um. Tudo foi atribuído aos monstros. Como tinham sido ingênuos! Por tantos anos!, era o que diziam. E agora era necessária uma ação rápida contra eles, os Monstros Lendários. Precisavam salvar Porasy das mãos dos monstros, destruí-los e livrar a Aldeia Pirakuá, para que a paz se instalasse de forma definitiva.

E foi nesse momento de confusão que alguém se lembrou de Thomas. Talvez tenha sido o avô, ou os próprios pais da menina, ou talvez ele próprio tenha se levantado e pedido a palavra, o importante foi que a palavra chegou a ele. E quando ele tomou o microfone na mão, e a arara do deus Jahari, enviada pelo próprio Tupã, pousou em seus ombros, as pessoas se calaram, a se acalmaram. Um a um, todos se viraram e passaram a observar o garoto e sua arara.

(continua...) 

1350 palavras 

Porasy e o estranho mundo das histórias de seu avô indígenaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora