Written in My Own Heart's Blood - II

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15 de maio

Eu não pretendia voltar ao diário hoje, mas a chegada da carta de Anika me convenceu a fazer isso. Ao contrário de Olívia, Anika escreve cartas curtas, mas com todas as informações necessárias. Talvez porque ame escrever cartas e seja a única de nós que o faz por prazer. Ela não precisa ir além do conjunto de frases que me informa que: Persephone continua tão bem quanto poderia estar, dadas as circunstancias, Selene deve pular uma série no começo do próximo ano letivo, Olívia está resignada a não voltar para a casa dela independente do que ela implore e que seu novo papel na cidade é ajudar em partos de crianças que cada vez mais recebem seu nome ou o nome de nós treze – para escrever uma boa carta.

Eu me peguei sentindo uma falta tremenda de Anika e de sua pequena corte em Piatra Neamnţ ao terminar a carta. O tipo de saudade que me faria sair correndo de Graz e pegar um trem ou um avião em Viena para voltar para o conforto da casa dela. Eu sei que não poderia fazer isso – não fosse por como me sinto, seria pela fúria que eu sei que despertaria em todas as outras que tentaram me convencer a deixar Graz e não conseguiram – e por isso volto a escrever sobre os dias passados naquela casa. Uma pausa muito desejada entre uma batalha e outra, onde os maiores problemas eram tediosamente normais.

Seis dias depois da aparição de Abadom, Anika resolveu dar uma festa de aniversário a Tatiana. O aniversário dela coincidiu com o dia seguinte ao aniversário de um mês da Batalha Final com o Inferno. Os humores eram diversos e o clima geral beirava o depressivo, por isso, Anika resolveu que Tatiana merecia a festa de aniversário mais incrível que desejasse e envolveu todo mundo nos preparativos no dia necessário.

Nós rodamos a cidade inteira naquele dia recolhendo o necessário e um número surpreendente de coisas saiu de graça por serem para nós. Era como Nova Orleans, mas diferente ao mesmo tempo: Em Nova Orleans nos adoravam como deusas por nos considerarem aquilo de mais belo que a alta sociedade tinha a oferecer. Pessoas que tinham tudo nos ofereciam parcelas disso. Em Piatra Neamnţ, cada presente era um agradecimento e mesmo vindo de quem não tinha nada, a recusa era uma afronta.

Tendo acompanhado Anika em várias missões durante aqueles seis primeiros dias, eu conhecia boa parte da cidade. Todas nós tínhamos algo a oferecer àquelas pessoas. Do Réquiem ao Fogo, todas nós tínhamos um toque, um poder que podia ajudar alguém. Nós não o fazíamos movidas por uma bondade ou pelo desejo de ajudar, mas pela necessidade de nossos poderes em serem úteis e na vontade de ter um propósito. Quando as ações eram respondidas com gentileza, uma culpa cristã tomava conta de nós e nós nos víamos desejosas de fazer mais e recobrar aquilo, apenas porque podíamos.

- Às vezes eu estou ajudando alguém e penso: Eu poderia matar você. Em outra vida, eu teria matado você tão facilmente. – Anika me disse enquanto passávamos por um supermercado naquele dia das bruxas. – Então eu penso: essa pessoa não tem nada para me dar, não está me tomando nada e sua morte não me traria vantagem alguma. E não faço. Mas ainda sei que posso.

Isso resumia como nós nos sentíamos. Em algum lugar dentro de nós, ainda éramos máquinas letais. Criaturas que matariam com prazer e por prazer e sem hesitar. Só que ao mesmo tempo, se não houvesse um bom motivo para matar, por que faríamos isso?

A altura em que chegamos em casa, ela estava fervilhando de atividades. Todas estavam espalhadas por algum canto da casa, pendurando decorações, embalando presentes, movendo móveis para abrir espaço para uma pista de dança e organizando o sistema de som, entre outras coisas. A festa improvisada seria muito melhor do que festas que fizemos por vários dos anos anteriores e uma boa parte da cidade, a família mais próxima de Anika, estava convidada. A única pessoa que não estava autorizada a fazer coisa alguma, era a própria Tatiana, que aceitava esse papel de bom grado, largada em um sofá na sala com o celular na mão.

As Crônicas de Kat - A História CompletaWhere stories live. Discover now