E não sobrou nenhum - V

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Próximo a Bucau, Romênia

19/20 de julho

Valentina

Eu não consigo evitar. Mais de um dia depois, eu continuo encarando Amelie durante todo o caminho que fazemos de volta para o carro de Ellie. Ela está sentada no chão, tem as mãos e os pés presos. O rosto está livre, mas a mandíbula está travada, se recusando a falar. Ela nem parece pálida. Três meses atrás estava morta, sem coração, no chão do cemitério de Piatra Neamţ e agora está viva – ou tão viva quanto eu estou. Eu não acho que teria voltado à vida em 1900 se estivesse sem coração, mas, novamente, você não pode matar o que a própria Morte não quer morto.

Estamos sentadas em círculo próximas ao carro de Ellie, tentando descobrir como vamos levar catorze pessoas em apenas um carro. O dia inteiro foi passado tentando montar a dinâmica disso, mantendo Alex desacordada e Amelie presa. Em uma ligação hoje cedo, Persephone disse que o sangue das que se foram nos deixou mais forte, por isso uma luta física foi vencida com facilidade hoje, mesmo que os membros restantes do Clã Romeno tenham sido treinados pela mesma pessoa que nos treinou e conhecia todos os nossos truques.

Bocejo. Está tarde, eu não dormi ontem e passei o dia inteiro encarando Amelie com ansiedade. Kaylee faz o oposto disso, evitando olhar para seu sacrifício e passando o dia inteiro conversando com Kat e Sophie sobre como levar todas nós seguramente para Piatra Neamţ antes do dia 21 – quando Charlottie está marcada para morrer. A lua cheia brilha ameaçadora contra o capô do carro negro e eu me distraio olhando para esse reflexo. Aprendi a olhar para a lua com medo pelo que seus ciclos significam para a nossa guerra. Batalhas em dias de lua cheia, gritos de guerra em dias de lua minguante, mortes em dias de lua crescente, visitantes indesejados em dias de lua nova. A batalha final na Lua Negra, entrando pelo céu que sangra. Sinto falta de minha irmã. Ela saberia o que significa "o céu que sangra"...

Acordo de repente, a luz da manhã invadindo meus olhos. Me acostumei a dormir sentada no chão duro e quase não me mexer a noite inteira, mas meus ossos ainda reclamam um pouco. O Exército inteiro continua ao meu redor, algumas de nós dormindo, outras – naturalmente, Kat, Ellie, Sophie e Kaylee – acordadas e observantes, conversando e mantendo os olhos bem abertos.

Algo está errado e eu não sei dizer exatamente o que é. Conto quantas de nós somos com cuidado, mas a contagem está certa, não interessa quantas vezes eu a refaça. Quando passo os olhos pelo círculo mais uma vez, eu noto um movimento. Pierre não está dormindo onde estava antes. Ele agora está deitado em uma posição estranha – quadril para cima e braços abertos, com o rosto pressionado contra o chão – ao lado de Alexandra. Ele se mexe apenas um pouco, mas como se convulsionando e solta pequenas lamúrias regulares. Me levanto e me aproximo dele, movida pela curiosidade. As outras acordadas me seguem com o olhar e percebem a movimentação estranha de Pierre.

Toco nele com a ponta do pé e seu corpo se estica para a frente como se estivesse sem vida. Embaixo dele, muito sangue, cujo cheiro toma conta da floresta imediatamente. Todas as vampiras que estavam dormindo acordam ao mesmo tempo e as já acordadas, se colocam de pé. No mesmo segundo, um grito cortante vem de trás de mim e o parasita acorda. Conforme ele começa a falar em línguas demoníacas novamente, o céu escurece, como tomado de fumaça de queimadas. Pierre, apesar de sangrando e desacordado, continua gemendo. O parasita, continua falando. Atrás de onde eu estou, ouço a voz de Ellie gritar, em choque:

– TATIANA!

Quando me viro, Ellie já está ao lado da tataraneta, que caiu no chão, ficando quase na mesma posição que Pierre. Tatiana está suada e convulsionando, com a pele muito vermelha.

As Crônicas de Kat - A História CompletaWhere stories live. Discover now