Wild Ones - III

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Szeged, Hungria

Katerina

Eu me consideraria acostumada a ser acordada por minha própria dor. Quando você viaja a pé por anos e dorme em clareiras de florestas de chão duro ou em cima de árvores, você se acostuma a ser despertada por todas as partes do seu corpo em agonia. Em comparação à sensação que eu tenho ao ser acordada no meio da viagem até Graz, essas dores antigas parecem carícias.

Ellie é uma boa motorista e teve uma boa noite de sono ontem, então decidiu dirigir direto de Bucareste a Graz, sem medo de se cansar. Eu, por minha vez, estava exausta. A pequena excursão seria uma oportunidade de passar 48 horas sem os treinamentos exaustivos. E Persephone ainda me deu uma bolsa de sangue inteira, dizendo que eu precisaria estar bem alimentada. Por isso tudo, com menos de duas horas de viagem de carro eu peguei em um sono profundo e dormi como um anjo... Até ser acordada ao ter uma barra de ferro atravessada na barriga.

A dor me desnorteia por um instante. Nem entendo como posso estar acordada. Não consigo ver nada através da névoa que se forma em meus olhos. Esqueço onde estou ou o que deveria estar fazendo. Quando o instinto de sobrevivência finalmente prevalece e grita dentro de mim para que eu saia dali, percebo as três coisas principais ao meu redor: Primeiro, estamos fora da estrada agora, entre duas árvores em um campo. Segundo, a barra de ferro enfiada em minhas entranhas entrou precisamente no meu lado do carro, então é impossível que tenha sido um acidente. Terceiro, Ellie está chamando por meu nome, com toda espécie de desespero na voz.

Tento responder, mas o ferimento me impede de falar qualquer coisa. O ruído rouco que sai de mim é suficiente para que Ellie perceba que eu estou viva e suspire de alívio. Ao invés de abrir as janelas escuras e deixar a luz do fim de tarde entrar para poder me ver, ela usa a luz do celular. Afasta as mechas de cabelo suado do meu rosto com cuidado e sussurra:

- Um homem no meio da estrada estava carregando uma barra de construção de ferro enquanto atravessava a rua. Pensei que ele fosse chegar ao outro lado, mas ele se virou e enfiou a barra de construção pela janela do carro. Ainda consegui dirigir uns dois quilômetros para cá, mas ele está vindo. Precisamos sair daqui, Kat.

Abro os olhos, pretendendo gritar que ela está louca, mas a tentativa faz com que a dor piore em centenas de vezes. Tudo que consigo dizer, entre engasgos, é o nome de Ellie esperando que ela entenda a súplica, demonstrando que não é hora para uma fuga.

- Kat. - Ela chama com uma tentativa de firmeza quando eu gemo - Kat. Me escute. Eu vou puxar a barra para fora. Não encostou no seu coração e nem está perto de desmembrar você. Te levo até o humano mais próximo e até onde eu me importo, você pode destruir uma cidade inteira para se recuperar, mas não podemos ficar aqui. Ele está vindo.

Começo a chorar. Eu pensaria em quão estranho isso é se não fosse por toda dor - o motivo pelo qual eu choro. A dor que eu sinto é tão profundamente física que deixou minhas reações biológicas descoordenadas. Eu não chorava desde que estava viva. Quando consigo abrir os olhos e afastar as lágrimas, Ellie está olhando para mim com toda a preocupação do mundo no olhar. Sou eu quem não tenho alma e eu não tenho a metade da coragem que ela tem. Engulo em seco e faço um sinal com a cabeça. Precisamos fazer o que ela disse. Eu provavelmente vou desmaiar de um jeito ou de outro. De qualquer forma, é tarde demais quando Ellie vai em direção à porta. Antes que ela alcance a maçaneta o vidro do para-brisa é estilhaçado e a barra de ferro de construção é arrancada violentamente de dentro de mim. Eu desmaio ao som do grito de Ellie.

Acordo com gotas de sangue humano gotejando sobre minha boca. A primeira coisa que eu reconheço é o cheiro. Se a terra suja de sangue é minha lembrança mais primitiva, o cheiro das tochas é uma recordação de infância. O chão aquecido pelo círculo cerimonial e pelas tochas é como um abraço de mãe, como me deitar nos braços acolhedores de um amante. Um movimento me traz de volta a realidade, a dor me mostra que ainda estou machucada. Abro os olhos e descubro que um corpo com um corte no pescoço está sendo segurado sobre a minha cabeça. Os olhos em pânico na vítima me fascinam e eu estendo os braços para alcança-la. De repente, todas as pessoas em volta do círculo começam a gritar como uma torcida em fúria e meus instintos primitivos de ataque se aguçam. É como se fosse 1844 outra vez.

As Crônicas de Kat - A História CompletaWhere stories live. Discover now