E não sobrou nenhum - IV

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Via E81, Romênia

18 de julho

Charlottie

Saímos antes do sol nascer, os três carros cheios dos nossos pertences e de nós mesmas. Kaylee, Ellie e Sophie são as únicas que sabem dirigir e os carros seguem enfileirados pela estrada, feitiços poderosos de camuflagem nos protegendo pelo caminho de volta, como fizeram na ida. O carro de Ellie está com Anika, Valentina, Tatiana e Olívia e eles parecem ser o grupo que segue com mais tranquilidade e silêncio. No carro onde estou, de Sophie, estamos além dela, eu e Pierre, junto com três caixas de tramazeiras no banco de trás. Pierre e Sophie não param de discutir, e quando parecem que estão terminando, Sophie encontra algo a dizer e a briga recomeça. Eu acho que ela só não quer o silêncio. No carro de Kaylee, estão Kat, Juliana, Alexandra e Louise.

Mesmo que um carro inteiro se coloque entre nós, ainda é possível ouvir os gritos do parasita. Ele fala em línguas mortas, depois xinga em romeno, inglês, francês, português e mais outra dezena de línguas que conhecemos. Clama por algo, chora, se desespera. Diz que vai morrer e repete o pedido pela vidente. Se alguém tenta se aproximar ou deixar o corpo da hospedeira mais confortável, solta um chiado, os olhos de Alex escuros e seu nariz sangrando. Então repete gritos e lamúrias, falando em alguma língua que só os demônios entendem. Pierre tentou se comunicar quando ainda estávamos em Bucareste, mas o demônio gritou ainda mais alto, fazendo a garganta de Alexandra falhar. É enlouquecedor. Ninguém sabe se tirar o parasita de Alex vai ou não matá-la, qual a condição de sua alma no momento ou o que é exatamente é esse monstro consumidor. Ninguém procurou saber, porque todo mundo estava preso no seu próprio mundinho ou tentando salvar a mim.

Um arrepio sobe pela minha espinha, e enquanto eu fecho o vidro da janela do carro, eu percebo que o carro finalmente está silencioso depois de duas horas. Sophie colocou uma música tranquila e a ouve baixo para não perder a atenção na estrada ou no feitiço que faz constantemente. Olho para trás e Pierre está dormindo, a cabeça balançando contra o vidro da janela para ficar o mais afastado possível das caixas de rowans.

– Me diga que você não apagou Pierre com um feitiço. – Digo para Sophie.

Sophie ri.

– Bem que eu queria, mas Kat nunca deixa e eu me acostumei a não fazer. – Ela responde – Acho que o cheiro das frutinhas embalou ele ao sono.

Com a menção às frutas, eu faço o que faço constantemente e puxo uma frutinha do arranjo que não tiro do cabelo. Encaro a frutinha como se ela viesse de outro mundo. Tramazeiras possuem frutos vermelhos em forma de lágrima, com uma marca em forma de um pentagrama na base. São firmes e agridoces, mas cedem quando eu aperto com força. Eu faço isso mais uma vez, estouro a frutinha em minha mão e o liquido dentro dela escorre pelas aberturas dos meus dedos, caindo no meu vestido.

– Charlottie. – Sophie diz, ao notar minha expressão encarando a bagunça que fiz. – Não faça nada estúpido. Não vou desistir de proteger você ou sair do seu lado, mas você precisa confiar em mim.

Solto uma risada cruel, mas não digo nada. Sophie sabe que isso não é o suficiente e geme, imaginando o que eu devo estar planejando. Mas eu não estou planejando coisa alguma, estou apenas com frio, mesmo que seja meio do verão, e estou pensando em como os gritos do parasita soam como "dois dias, dois dias, dois dias".

Via DN2/E85

Olívia

É quase meio dia quando acontece. Um vulto atravessa a estrada e o carro de Kaylee freia bruscamente. Ellie precisa desviar de repente, assim como Sophie, e os dois carros deslizam pela estrada. Eu posso sentir o feitiço de camuflagem se quebrar em mil pedaços, mas não existe outro carro na estrada.

De onde estamos, não é possível ver a frente do carro de Kaylee e descobrir porque ela parou, mas nós não deveríamos parar de jeito nenhum, então Ellie e Sophie trocam olhares através dos para-brisas do carro. Sophie sai de seu carro ainda ligado e Ellie se vira para conferir se estamos bem antes de fazer o mesmo. Mal eu faço um sinal com a cabeça do meu canto, o carro balança com o impacto de algo grande atirado sobre seu teto.

Ellie nem pensa, apenas acelera em direção à floresta às margens da estrada. Dirige apressada, sem olhar para trás, passando por cima de plantas rasteiras intocadas e violentamente arrancando galhos das árvores. Dirige por quase três quilômetros antes de estacionar o carro em um lugar seguro, escondido entre duas grandes árvores. Quando para, fica respirando fundo, controlando algum impulso de sentimento que possui dentro dela.

– Ellie. – Anika chama, do meu lado. Ellie continua respirando fundo, chiando e não diz nada, então Anika repete: – Ellie. Nós precisamos voltar. Descobrir que diabos foi aquilo.

A voz de Ellie soa com um fundo de ódio que eu conheço bem demais.

– Eu sei exatamente que diabos foi isso. – Ela rosna – E nós precisaremos de muito mais que fogo dessa vez.

Quando chegamos à estrada, a luta está no meio. Os carros estão vazios e pegando fogo. Três mulheres altas e musculosas tentam escapar das bombas de fogo que Sophie lança em sua direção. Pierre está torturando mais alguns vampiros, o esforço claramente o abalando. Charlottie escapa de tentativas de segurá-la com a leveza de uma bailarina. Kat usa de golpes que eu nem imaginava que ela conhecia. Louise, Juliana e Alexandra não podem ser vistas em lugar nenhum, mas eu ainda consigo ouvir os gritos do parasita, provavelmente excitado pela batalha. Também não vejo Kaylee.

A pedra em meu colo está pesada, mas não apresenta os sinais de que alguém está sangrando. Percebo que a luta corre bem e junto a Ellie, Anika e Valentina corro para aliviar o peso da batalha de minhas irmãs. Pegando pelo pescoço uma das vampiras que fugia de Sophie, sou atirada ao chão imediatamente. Sequer dói e eu agradeço a Louise, onde quer que ela tenha se metido. Eu repito o ataque uma, duas, três vezes. A mulher acha graça, como se fosse uma brincadeira de criança. Finalmente, uso a leveza da minha mão para roubar a faca que ela tem presa à cintura e depois de golpeá-la nas costas, consigo arrancar a cabeça da mulher de seu pescoço com os dentes. Quando volto a mim, a batalha já está acabando e toda estrada é uma confusão de corpos pegando fogo.

– Bem, eu espero que agora tenhamos acabado com o Clã Romeno. – Sophie brinca, depois de colocar fogo no último corpo torturado, se afastando da estrada para nos ajudar.

– Sinto dizer que eu duvido muito. – Kat responde. – Viu algum dos líderes? – Completa, para Ellie.

Ellie discorda com a cabeça, tensa. Ela tem sangue desde o pescoço até o meio do joelho, sangue dos outros, e eu me pergunto quantas pessoas ela matou nessa batalha.

Andamos para fora da estrada e nos escondemos atrás de árvores. A contagem começa quando Louise e Juliana saem das sombras com Alexandra desmaiada entre as duas. Pierre assume o peso da garota na mesma hora, apesar de ainda estar um pouco machucado. Quando a contagem termina, não encontramos Kaylee.

– Alguém sabe o que aconteceu para fazê-la frear daquele jeito? Nós tínhamos regras. – Kat pergunta, apesar de estar ao lado dela durante a viagem. As outras pessoas que estavam no carro discordam com a cabeça.

– Eu acho que ela viu alguma coisa. – Louise diz, mais baixo.

Sophie ergue a mão para silenciar todo mundo. Passa alguns segundos tentando ouvir algo, nervosa. Quando consegue, suspira.

– Ou alguém. – É o que diz, simplesmente, indicando o caminho que devemos seguir.

Seguimos pela floresta por quase quinhentos metros antes que encontremos uma clareira, em um sentido oposto ao lugar onde o carro de Ellie está. Na clareira, ouvimos a voz de Kaylee, lançando uma maldição em latim, um feitiço antigo. O que capto da frase gritada, ordena que os mortos continuem mortos. Aproveitando meu próprio tamanho novamente, passo na frente da formação do Exército e tento descobrir o que está acontecendo. Kaylee está parada no meio da clareira e diante dela uma figura mediana se curva no chão, tomada por dores explosivas.

– VOCÊ NÃO PODE MATAR O QUE A PRÓPRIA MORTE NÃO QUER MORTO. – A figura em agonia diz repetidas vezes, em inglês.

Eu reconheço a voz e o sotaque antes de ouvir a primeira repetição. Amelie.

As Crônicas de Kat - A História CompletaLeia esta história GRATUITAMENTE!