Ellie - III

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Diário de Kat

Retirado de um jornal em Paris

O corpo de Claudette Gnoi foi encontrado essa manhã, banhado no próprio sangue e com feridas em diversas partes, em frente ao Orfanato Pepot. A família encontra-se desolada e traumatizada. A polícia busca qualquer tipo de informação sobre pessoas vistas nos arredores na noite de ontem.

Só isso? 3 horas dedicadas a matar lentamente aquela pobre criatura e tudo que a morte ganha é uma nota de rodapé?

É, fui eu quem fiz isso. Corpos banhados em sangue são a minha nova assinatura psicopata. É como um toque de brilhantismo aos jantares da meia noite. Quando acham um corpo sem sangue deduzem que foi um vampiro, mas quando acham um corpo banhado em sangue acham que foi um maníaco sádico qualquer. Mas advinha só? Vampiros SÃO maníacos sádicos.

12 de outubro

Angélique é a pessoa mais entediante da face da terra. Fui forçada a passar horas com ela, agindo como humana e foi tão terrivelmente chato que eu nem tive forças para ficar imaginando como seria destroçar aquele pescoço gorducho (o que sempre faço para me distrair quando estou com humanos).

Eu sei que sangue é sangue, mas eu não estou faminta, muito pelo contrário, e mesmo que a vida de um vampiro se resuma em sangue nós gostamos de fazer da experiência a mais divertida possível. Prolongando nosso mortífero gozo, com o requinte de um gastrônomo e ampliando-o através das progressivas investidas de uma ardilosa abordagem.

Quero dizer se você estivesse com fome e pudesse escolher entre preparar um cozido de anchovas com cebola, alho e salsa e um peru assado recheado com passas, bacon e pedaços de maçã o que escolheria?

Voltando ao assunto, em algum ponto no meio da infinita conversa de Angélique sobre todo o bordado que ela teria que fazer para o enxoval de seu casamento, titio Julian chegou e me levou até sua sala para conversar.

Aparentemente, meu dever aqui é descobrir que tipo de demônio ele evocou para possuir Alec. De repente, só porque eu fui obrigada a me encontrar com alguns espíritos do baixo escalão, eu me tornei a especialista da família em Inferno.

Quando eu perguntei por que ele queria tanto assim saber qual o tipo de demônio se no final ele só mataria Alex e possuiria o próximo babaca que se atrevesse a invocá-lo, ele me contou que aparentemente o corpo de Alec teve uma reação... curiosa, ao ver sua antiga noiva.

O que significa que meu primeiro passo é conhecer a tal Eleanor. Ou melhor, Ellie.

16 de outubro

Diário de Ellie

Não consigo dormir, e sei do que é a culpa.

Por mais que eu acredite que ao colocar em um papel eu estou dando mais poder aos fatos do que deveria, sei que eu preciso registrar para que eu tenha certeza que aconteceu, sem a influência das histórias de terror de madame Pepot.

Há 4 dias uma garotinha (que afirma ter 14 anos, mas não parece ter mais de 10) apareceu ensanguentada e esfarrapada na porta do orfanato, pedindo abrigo. Seu nome é Katerina, mas logo fez com que todos a chamassem de Kat. Ela é uma criaturinha irritante e irritável com olhos verdes enormes e um rostinho que deixaria os anjos de qualquer afresco com inveja.

Eu arrumei um lugar no quarto das meninas, preparei um banho e comida, mas ela só aceitou o primeiro, depois se vestiu com roupas confortáveis que peguei emprestado de Eileen.

Como as mortes na Rue Saix estão aumentando de número todas as noites, Madame Pepot permite que eu vá para casa mais cedo, logo, hoje eu fui liberada as 16hrs.

Já estava me preparando para sair quando François, uma das crianças mais novas mais novas do orfanato, apareceu cambaleando pelo corredor com uma ferida no pescoço. Corri até ele e perguntei o que tinha acontecido, mas ele apenas ficou repetindo "um gatinho, um gatinho" e como parecia com febre imaginei que estivesse delirando. Voltei lá para cima, e dei um banho nele e o ajudei a pegar no sono. Então procurei por Kat por tudo o lugar para pedir que mantivesse o olho em François durante a noite, mas como não pude encontrá-la, deixei um bilhete pendurado na porta do quarto e rezei para que ficasse tudo bem.

Quando saí, já estava bem escuro, então redobrei a atenção. A rua estava deserta... Por isso quando o grito cortante soou, ele ecoou por cinco quarteirões. Assim como o silêncio aterrador que veio em seguida.

Eu sabia que não podia fazer muito pela pessoa e provavelmente só me colocaria em perigo, mas eu estava muito perto do orfanato para não me preocupar com o que aconteceria em seguida, então segui o eco do som e dei de cara com o pior cenário que poderia sonhar: um corpo estava jogando no chão em uma posição medonha.

Perfurações apareciam em todas as partes visíveis e o sangue escorria delas com tanta força que o som se assemelhava ao de uma torneira. O rosto estava desfigurado, com a língua para fora e cortada na metade, os olhos já estavam fora da órbita havia muito tempo, mas os dois buracos negros ainda tinham a expressão de pânico da morta.

Justo quando me perguntava que tipo de criatura infernal tinha feito aquilo, eu vi a bolinha completamente negra que se mexia em volta do corpo. O gatinho se esgueirava ao lado do corpo lambendo cada ferida habilidosamente e levando, a cada lambida uma bela quantidade de sangue.

Eu engoli em seco, e o som pareceu tão alto que chamou a atenção do gato para mim. Ele parou e levantou os olhos, verdes e brilhantes como folhas, parecendo me olhar diretamente e por meio segundo eu tive a impressão de que reconhecia aqueles olhos verdes de algum lugar... Então eu corri.

Ao chegar em casa, me joguei na cama e me cobri até a cabeça, com o coração aos pulos e implorando para que o sono acabasse com o que vi, mas não consegui pregar os olhos nem por um segundo o que me trouxe até este diário.

Diário de Kat

Incubus. O demônio sexual que toma a forma de um homem e ataca mulheres a noite.

É uma lenda interessante, mas mal interpretada. O íncubo toma o corpo de um homem (apenas homens belos, aliás) e não ataca só mulheres e não só adormecidas.

O demônio só usava o corpo das mulheres para reprodução. O bebês são meio humanos (na parte física) e meio demônios (na parte espiritual). Com aparência humana, mas imortais e com o poder igual aos do que a gente chama de "demônios do baixo escalão", ou seja, aqueles que são mandados para terra em possessões. De qualquer forma, não existem bebês meio humano e meio demônios desde a idade média.

Eu só estou falando tudo isso porque foi esse o demônio que titio invocou acidentalmente. Dentre todos os demônios existentes no Inferno, ele invoca justo a espécie mais imprevisível e incontrolável. Se eu sentisse alguma coisa, eu quase sentiria pena de Angélique.

Tudo que eu precisei fazer para descobrir porque "Alec" reagiu ao ver Ellie, foi me aproximar dela um pouco. Assim que adquiriu confiança em mim, ela me contou tudo sobre o noivado, e eu descobri que eles já tinham se conhecido no sentido bíblico do termo. É óbvio que o íncubo iria se sentir atraído pela última parceira física do hospedeiro.

Agora nada disso importa, titio já sabe de tudo e meu trabalho está terminado. Ou quase. Eu iria embora de Paris hoje... Se não tivesse me deixado seduzir por Ellie.

Não no sentido sentimental da coisa toda, óbvio, mas tem algo de atraente na força, na coragem, na beleza e na história dela que me faz lembrar da primeira ordem: multiplique.

Ela daria a vampira perfeita, e eu tenho me divertido tanto criando a "rua de sangue", que acho que a única forma de ir embora de ir embora da cidade agora é deixando uma herdeira.

As Crônicas de Kat - A História CompletaLeia esta história GRATUITAMENTE!