Mi Totentanz

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Eu comecei uma contagem regressiva para o dia do sacrifício no meu aniversário de 7 anos, mas depois de um tempo ficou entediante. Quando minha rotina de acordar, marcar o calendário e ler livros e mais livros mudou para a pratica de feitiços em qualquer hora do dia ou da noite que minha mãe achasse mais conveniente, eu fui perdendo as contas. Dias, semanas e meses se tornaram baseadas em estudo e treinamento. E eu não me importava, era divertido. Eu era inteligente e talentosa e o orgulho nos olhos da minha mãe - mesmo que fosse orgulho de si mesma - era o mais próximo que eu tive de amor. Por isso, quando eu fui acordada no dia 8 de setembro de 1844, mesmo que alguém me perguntasse o que aconteceria era eu provavelmente responderia com: hoje é o segundo domingo do mês, então é dia de estudar as religiões do mediterrâneo.

- Acorde e ponha todo esse sono pra fora. - Minha mãe cantarolou me puxando pelos ombos para me acordar - Hoje é o grande dia.

O brilho no olhar dela era algo genuíno. Eu sabia pouco sobre isso, mas sabia que ela estava feliz. Ela abriu um baú de couro que devia ter levado para meu quarto em algum momento da noite e começou a colocar os pouquíssimos pertences que eu tinha nele. Eu continuava um pouco perdida:

- Grande dia?

Ela se virou para mim, com aquele brilho estranho ainda no olhar.

- Faz exatamente 9 anos 364 dias e 5 horas que você nasceu, Katerina. É hora de começar a prepará-la, meu sacrifício puro.

Com bile na garganta, eu dei uma olhada de lado para a parede onde a marca do Inferno costumava ficar, não havia nada lá. Depois de 4 anos me ensinando o que deveria fazer depois da noite em que morreria, eu estava sendo deixada sozinha para completar uma obrigação que era mesmo só minha. Era demais para alguém que ainda ia completar 10 anos. Jocelyn terminou de guardar tudo que era meu no baú, com exceção de minhas roupas, enquanto as lágimas surgiram no canto dos meus olhos.

- Ah, não tenha medo, Katerina. A maior parte do seu trabalho já foi feita ou será feita a partir de amanhã. Todo o trabalho hoje será meu, apenas aproveite este momento.

- Mamãe. - Disse com um fiapo de voz que nunca havia usado e nunca usaria outra vez. - Vai doer?

- Serei sincera: Sim. E não usarei eufemismos: Bastante. Entretanto, é só por esta noite, o que é uma noite de dor em comparação a uma eternidade de conquistas? - Antes que eu pudesse processar o que tudo aquilo significava, ela me puxou pela mão - Mas chega de dúvidas e medos, eu tenho algo a lhe mostrar.

Ela me arrastou para fora do quarto que eu estava vendo pela última vez como humana e me levou até o dela. Depois de me colocar sentada na cama, ela abriu seu armário pequeno e tirou um embrulho que me deu.

- É seu. Para usar esta noite. - Antes que meus dedos começassem a se mover, ela me impediu - Você só pode abrir se me falar sobre o feitiço que eu farei essa noite.

Eu estava acostumada a ter que fazer essas pequenas trocas, só que geralmente era algo bem mais simples, como meu almoço por um poema traduzido para o francês. Ou um pedaço da história do Inferno em troca de uma tarde livre. Mas o feitiço complicado e tudo que eu sabia sobre ele escapou dos meus lábios com facilidade - eram, de certa forma, fatos familiares. Não pareciam ser destinados para mim, o medo que eu tive há poucos instantes havia sido completamente substituído por minha curiosidade em saber o que o pacote continha.

- Muito bem, Katerina. É bom que saiba como foi transformada, poderá usar isso em breve. Pode abrir seu presente.

Rasguei o papel pardo com vontade e um vestido branco de renda e seda apareceu diante de mim. Ele tinha mangas curtas e parecia mais uma camisola do que um vestido do dia-a-dia e era, afinal, uma espécie de mortalha. De qualquer forma, era mais bonito do que qualquer coisa que eu já tive em vida. Jocelyn ficou satisfeita com minha alegria.

As Crônicas de Kat - A História CompletaWhere stories live. Discover now