Nosferatu - VI

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22 de novembro de 1880

Diário de Kat

Estamos a caminho de Viena agora, de trem. Sophie cochila enquanto eu remoo o que aconteceu na noite passada.

Mais ou menos às 6 da tarde, quando a lua já começava a surgir, eu e Sophie entramos em uma discussão sobre o feitiço necessário para o sacrifício. Nós duas somos vampiras, então deixamos de ser bruxas, mas precisávamos dar um jeito em menos de 6 horas.

Acabei me lembrando de algo que a Morte disse: eu estou viva. Talvez a floresta me reconhecesse. Eu nunca tinha tentado porque achava que não iria funcionar. Mas dessa vez eu tentei. Evoquei os mesmos espíritos que conversavam comigo o tempo todo - ecos ou filhos da Morte como Deyah me ensinou a chamar, já que almas sozinhas não permanecem na Terra – e implorei por ajuda. Mas não fui respondida. Sophie tentou a mesma coisa, com o mesmo resultado. Então ouvimos um grito abafado em casa e corremos lá para dentro.

Minha mãe – finalmente acordada depois de dias – usava um espelho para cortar o próprio pescoço e se matar antes da hora. Sophie correu até ela e a impediu segurando pelos braços.

- Eu não vou ser seu sacrifício! – Ela gritou tentando se soltar do braço de Sophie e cuspir em mim. Mas eu me afastei graciosamente fazendo com que o cuspe cheio de sangue caísse no chão do quarto.

- Engraçado você dizer isso como se tivesse opções, mamãe.

Ela fez um esforço para se soltar de novo, mas Sophie a prendia com firmeza e sem comer há alguns dias, ela estava fraca demais para isso.

- Sua vampirinha nojenta.

Isso fez meu coração vibrar. Disparar, Katerina, disse uma vozinha em minha cabeça que soava como a Morte, você está com raiva.

- QUAL A SURPRESA? EU SOU O QUE VOCÊ ME TRANSFORMOU, O QUE VOCÊ FEZ DE MIM! E NÃO DIGA VAMPIRINHA COMO SE FOSSE ALGO DESPREZÍVEL. SE SER BRUXA É O QUE VOCÊ É EU PREFIRO VIVER O RESTO DOS MEUS DIAS A BASE DE SANGUE!

Mas assim que eu terminei de gritar isso, meu olhar cruzou com o de Sophie. Nós tínhamos uma bruxa bem em nossas mãos. Sorrimos uma para a outra e levamos a criatura à frente da cabana. Enquanto Sophie segurava minha mãe que ainda lutava, eu peguei uma pedra e desenhei um círculo perfeito no chão.

- Faça o feitiço. – Eu disse me aproximando de mamãe com um sorriso doce e irônico.

Jocelyn ficou chocada.

- O que?

- Faça o maldito feitiço.

- O que faz você pensar que eu vou fazer o feitiço que vai selar minha própria morte?

Meu sorriso se tornou feroz.

- Simples, porque até que você o faça você não pode morrer. E existem muitas, muitas formas de torturas que podem durar uma eternidade e fazer da sua vida algo pior do que o Inferno do qual você tanto tenta fugir.

Ela abaixou a cabeça e respirou fundo antes de começar a dizer as palavras. Eu fui até a casa pegar a adaga e quando voltei já encontrei minha mãe deitada no círculo com os braços abertos. Entreguei a adaga para Sophie.

- Você faz os cortes.

- Por que?

- Porque você não pode morrer e minha proteção acaba assim que eu atacá-la, Sophie. Eu deixo de ser um sacrifício maldito e me torno uma simples vampira.

Sophie jogou os cabelos para as costas e pegou a adaga. Ela conhecia os desenhos. Toda bruxa conhece os desenhos. Os lugares certos onde você corta alguém para fazer com que cada gota de sangue saia do corpo. Em poucos minutos a floresta inteira parecia impregnada com o cheiro do sangue. Eu senti uma espécie de êxtase enquanto via a mancha maior de sangue em cima da mancha antiga que meu sangue havia deixado. Ela sangrava e em breve estaria tão fraca que suas veias queimariam ao pulsar, mas não deixaria de viver até que a Morte viesse reclamá-la. Era isso que o feitiço garantia.

Sophie parecia enjoada. Ou sedenta, não saberia dizer.

- Nós precisamos ficar? – Perguntou cruzando os braços.

- Ela fez o feitiço direito?

- Até onde eu sei, sim.

- Mas ainda assim, eu preciso ficar, Sophie. Eu preciso vê-la ser sugada para dentro da terra. É a minha vingança final, a última coisa que preciso fazer.

Sophie mordeu o interior da bochecha, pensando um pouco antes de dizer:

- Kat, eu matei minha mãe. E mesmo gostando de saber que ela queimava, não fiquei para vê-la sofrer.

- É diferente.

- Mas eu estou com tanta sede.

Eu suspirei.

- Vá para Graz. Providencie uma passagem de trem para Viena. Partiremos amanhã cedo.

Ela abriu um sorriso luminoso e simplesmente sumiu, correndo entre as árvores. Eu subi em uma dessas árvores e permaneci lá pelas 3 horas seguintes, vendo mamãe agonizar, até que finalmente a meia noite chegou.

Os ossos de minhas antepassadas se levantavam. Os espíritos da floresta se revoltaram. Jocelyn soltou algo que com mais hidratação seria um grito, mas em um corpo quase sem sangue, não foi nada além de um grunhido. Eu sorri. A Morte se erguia, conformo os esqueletos se aproximaram do círculo com sua tradicional totentanz. Então os ossos finalmente chegaram ao círculo, como criaturas esfomeadas, mas assim que tocaram o furo na terra se partiram e voltaram ao pó...

Prendi a respiração, a noite da minha transformação na cabeça. Com um alivio final, percebi que minha mãe não mais respirava.

Viena

30 de novembro de 1880

Narração de Pierre

Kat estava inquieta desde que voltara de Graz. Vivia aos cantos, aos sussurros com Ellie, o que me deixava irritado, já que Sophie – minha única companhia - só sabia falar do príncipe.

Pelo visto, não havia agradado à vampira o fato de que a Arquiduquesa Valerie ainda mostrava indiferença a meu respeito. E não adiantava nada dizer que eu tive pouco tempo. Ela é uma imortal sempre com pressa.

Naquela noite estavam todas em um tremendo caos graças ao baile no castelo. Falavam de vestido como garotas humanas fúteis. Queria tanto deixar a Áustria, ir para um lugar mais selvagem onde elas voltariam a ser as garotas que me criaram. Eu pensava que se passasse mais um mês ali, aceitaria a proposta de papai.

Meu pai entrara em contato comigo há 7 anos. Meu pai real. O íncubo. Ele precisava que eu servisse a ele e me tornasse quase príncipe um dia. Eu vinha negado por puro respeito a Kat, mas estava perdendo aquilo.

Era hora de partir.

As Crônicas de Kat - A História CompletaWhere stories live. Discover now