A Hora das Bruxas - I

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"O tempo não é nada. Os humanos estão mudando. Seus sonhos estão cheios de previsões dessas mudanças. Virá uma outra que derrubará as barreias... E eu farei a travessia."

Anne Rice (A Hora das Bruxas)

1º de abril de 2016

Versalhes, França

Juliana

Sem saber se a campainha soou quando a apertei, eu aperto outra vez. Não escuto nenhum som de onde estou e bato o pé impaciente em não saber se a campainha não está funcionando ou se a chuva faz tanto barulho que o ruído da campainha desaparece. O movimento faz com que a poça de água que escorreu de mim se levante e respingue para todo canto. Resolvo bater na porta.

Leva mais quase três minutos até que alguém apareça. A porta é aberta por uma garota que não parece ter mais de doze anos. Ela é levemente mais alta que eu, mas possui no olhar uma infantilidade que eu reconheço facilmente. Existe algo de familiar na forma como ela para, com a porta entreaberta, e me observa de cima a baixo, mas eu não saberia dizer de onde a reconheço.

– O que você quer tão cedo? – Ela pergunta, em um francês agressivo.

– Meu nome é Juliana. Juliana Mayfair. Fui mandada aqui para encontrar com Antoine de Castro.

Ela abre a boca para me responder, mas a fecha de repente. Seu olhar viaja entre mim e a rua atrás de mim, onde uma chuva torrencial atrapalha o caminho de quem anda para o trabalho. Com um grunhido ela abre a porta e permite que eu entre.

– Ele não está. – Diz, quando estamos as duas dentro da casa e protegidas do som da chuva – Mas eu imagino que ele ficaria irritado se eu mandasse você para casa. Aceita um chá? Chocolate quente?

Discordo com a cabeça e ela me indica a direção de uma sala de visitas, com nada além de cortinas pesadas nas janelas e duas chaises longue. Aparentemente sua hospitalidade não se estende a toalhas para que eu me seque, mesmo que ela faça cara feia quando eu me sento em uma das chaises e molho todo o forro. Ela me oferece alguma bebida outra vez antes de pedir que eu espere e anunciar que voltará a dormir. Observo em choque enquanto ela sai da sala, sem dizer seu nome ou dar muitas explicações – ou explicação alguma. Balanço a cabeça afastando a surpresa quando deixo de ouvir seus passos.

Deixada sozinha na sala de visitas de uma casa desconhecida, eu cedo não à curiosidade, mas ao cansaço. Fecho os olhos e coloco as mãos sobre a pequena pedra de água-marinha sobre meu peito. Não durmo há três dias e dois deles foram passados rodando casas antigas exatamente como a em que estou agora. Os Apreciadores da Arte do Sangue possuem muitos doadores espalhados pela Cidade Luz, mas nenhum deles possui um senso de pertencimento ou de dívida tão grande a ponto de aceitar cuidar de Alex, depois da burrada que nossa mãe fez. Milhares de conversas e centenas de provas de que sim, eu sou uma vampira e pior, eu sou uma das treze vampiras que está em guerra contra o Inferno, a melhor pista que tenho é o tal de Antoine de Castro.

O senhor ricaço dono de uma casa antiga de quinze cômodos em Versailles também é um cientista que descende de uma família de bruxas, mas não tem poderes. Ele é conhecido por estudar seres poderosos com base em diversas outras ciências e, pelo que parece, aceitaria cuidar de uma jovem possuída por um parasita demoníaco desde que pudesse estudar o mesmo parasita. Depois de convencer uma dona de casas de show a falar com ele por mim, me deram este endereço e sugeriram que eu viesse visita-lo na manhã do dia 1º de abril. Aparentemente, seis da manhã é cedo demais ou não é cedo o suficiente.

As Crônicas de Kat - A História CompletaWhere stories live. Discover now