O Novato Veterano

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          Quanto tempo fazia que eu estava ajoelhado ali? Depois de anos repetindo essa rotina, parecia que havia se passada pouco mais de uma hora, mas eu sei que foi mais tempo que isso, talvez eu tenha cochilado sem perceber. Abrir os olhos chega a ser uma experiência quase dolorosa, a luz inundou minha visão acostumada com o escuro, forçando-me a fazer caretas enquanto tentava me acostumar a nova iluminação. Pela quantidade de luz vindo de fora, devia ser pouco depois da hora do almoço. Pensando nisso, eu não tomei café da manhã hoje, péssima escolha.

          Foi preciso tentar levantar para perceber que eu não sentia mais meus joelhos, o que é o esperado depois de ficar mais de cinco horas parado na mesma posição. Gostaria de saber o que o último novato a sair pensou quando me viu parado aqui. Talvez tenha sentido pena, com a minha fama, não é de se espantar que até os novatos sintam isso.

          — Como foi esse ano, Brayan?

          O velho padre que cuidava da capela se aproximou usando as roupas padrões: branco com um toque de branco. Por que a igreja gostava tanto de uniformes brancos? Eles ficam sujos tão fácil que chegam a ser um incômodo.

           — Não, mas não é como se eu esperasse algo — falei enquanto batia em meus joelhos, eles estavam formigando. — Fazem o que, sete anos? Não acho que os Anciões pretendem me dar uma Bênção a essa altura.

          — É uma pena, de todos os estudantes que passaram por essa escola, você é o que possui a maior determinação e disciplina que vi em todos esses anos. Mais até do que Kendra.

          — Obrigado, mas determinação e disciplina não ajudam muito nessa linha de trabalho sem uma Bênção. Kendra está por aí destruindo Masmorras, e eu tenho que ficar aqui. Bem, talvez a Alana finalmente me escute.

          — Você ainda não desistiu da ideia de abandonar a escola?

           — Isso ainda conta como desistir? — Me viro, olhando para porta com as mãos atrás da cabeça. — Eu estou aqui desde os doze anos, já tenho vinte e dois, isso são dez anos da minha vida que eu dediquei a aprender a usar uma espada e estudar os costumes dos Escolhidos. Mas já fazem sete anos e todo ano eu sou o único que não recebe uma Bênção dos Anciões. Isso já passou do ponto de ser frustrante há três anos.

          — Eu acredito que a Alana tenha bons motivos para não querer que você deixe a escola.

          — É, talvez para servir de exemplo para os novatos... desculpe, é a fome falando. Vou ver se consigo encontrar alguma coisa nas cantinas. Até mais, padre.

          — Até mais, meu filho. Tenho certeza que os Anciões guardam grandes planos para você.

          Os Anciões guardam planos para mim, quantas vezes eu escutei essa frase desde que entrei na escola? Com certeza mais vezes depois que falhei em receber a Bênção do que quando ainda era um novato normal. Eu sei que muitos falam isso para mim somente por pena, sem peso nenhum nas palavras, por causa disso, tem ficado cada vez mais difícil falar com os outros. Pelo menos o padre e a Alana ainda falavam sinceramente comigo, bem, pelo menos o padre. Nesses últimos anos, não consegui afastar a sensação de que a Alana estava escondendo algo de mim.

          Na saída, peguei minha espada, pelo menos o que acredito ser uma espada, do estande em que se deve colocar suas armas antes de entrar na capela. Aparentemente, os Anciões não gostam que se aproximem deles com coisas pontudas. Como de costume naquele dia do ano, observei ela um pouco: o formato de uma espada curta embainha com um cordão prateado enrolado firmemente ao guarda-mão, prendendo a lâmina dentro da bainha. Nunca haviam conseguido remover o cordão, e eu só a mantinha comigo porque me diziam ser uma herança de minha mãe. Mas mesmo dizendo para mim mesmo que eu já não me importava mais em receber uma Bênção, naquele dia do ano, ela parecia ser apenas um pedaço de lixo.

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