De Mãos Dadas para o Abismo

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Capítulo 4

De Mãos Dadas para o Abismo

          O dia seguinte inteiro foi quase uma repetição da minha luta contra aquele Resquício em formato de lobo. Eu quase sendo morto por uma criatura que mais parecia ter saído dos pesadelos de uma criança de oito anos, dando um jeito de encontrar alguma parte vulnerável do corpo dela para enfiar minha espada e o Dragão me obrigando a espancar o animal até a morte uma vez que ele estivesse incapacitado.

          — Resquícios não são criaturas vivas, são apenas acumulações de Miasma. Você tem que se acostumar a matá-los sem hesitar se quiser ser um Amaldiçoado.

          Ou pelo menos essa era a explicação que o Dragão me deu quando eu perguntei por que ele estava me fazendo fazer aquilo. Não posso negar que esse treinamento gerou alguns resultados. Estou mais acostumado a lutar com minha espada e minha energia não estava se esgotando tão rápido durante as lutas. Porém o mais chamativo tem sido a mudança em meu cristal.

          O fino fio negro que havia se formado quando eu enfrentei o lobo engrossara um pouco e vários outros fios mais finos começavam a se projetar dele, como se uma pequena árvore negra estivesse presa dentro dele. Logo, o cristal inteiro ia estar daquele jeito, e minhas chances de voltar para a escola teriam acabado de vez.

          — Ainda pensando se deveria voltar?

          Dragão se aproximou, silenciosamente, como de costume, enquanto eu estava pensando. Eu parei de olhar para o cristal preso ao colar — que agora usava em meu pescoço — e olhei para ele.

          — Só verificando o progresso do treinamento.

          — E você ainda não consegue dizer se isso é uma coisa boa ou não.

          Seria estranho se eu pudesse.

          — Bem, acho que neste dia eu já matei Resquícios o suficiente para cobrir a cota de qualquer guilda da Escola do Divino. Em quanto tempo você acha que essa parte do treino vai terminar?

          — No seu ritmo? Provavelmente em cinco anos.

          Aparentemente as pessoas acham que eu tenho anos infinitos para gastar treinando.

          — Não tem como acelerarmos esse processo?

          — Não do jeito que estamos. Sua postura em batalha melhorou bastante, e você está começando a produzir uma quantidade descente de Miasma, mas você ainda não está mentalmente pronto para ser um Amaldiçoado — disse Dragão, com seu tom de voz cansado, mas ainda firme. Nesse pouco tempo que havíamos passado juntos, já havia percebido que ele usava esse tom quando estava falando algo realmente sério.

          — Eu achei que era para isso que você estava me fazendo espancar os Resquícios até a morte.

          — Em parte. Você precisa se acostumar a matar Resquícios para se preparar para o próximo passo.

          — Que seria? — perguntei de uma forma hesitante, sabia o que ele iria falar.

          — Matar pessoas.

          Mais uma vez eu senti aquela sensação de mudança súbita. Eu sabia desde o começo que isso fazia parte de ser um Amaldiçoado, mas havia tentado evitar o pensamento.

          — Amaldiçoados são criminosos, caçados pelas escolas e pela igreja como seres cuja a existência tem ainda menos valor do que a de um Resquício. Pessoas tentarão matá-lo, e você vai terá de matá-las antes que elas consigam.

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