Guarda-Costas

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          Já havia me acostumado com o nervosismo antes de uma luta, afinal, desde que eu havia me tornado um Amaldiçoado, o que eu mais tinha feito era lutar contra inimigos que eram obviamente muito mais fortes do que eu. Mas, desta vez, era diferente. Não estava pensando em jeitos de me manter vivo, ou até mesmo de como ganhar a luta. Já sabia que iria ganhar, mesmo usando apenas o mínimo de Miasma, era certo que o mercenário não seria capaz de me acompanhar quando eu usasse o meu poder. Não, o nervosismo era por outro motivo. Eu estava nervoso porque não consegui decidir qual era o melhor jeito de matar o meu oponente.

          Eu só precisava quebrar ossos o suficiente para ele ser mandado para a enfermaria, essa era a parte fácil. Alguns golpes bem dados em seus braços e pernas já seriam mais do que o suficiente. Mas ele já sabia que eu era um Amaldiçoado, nada garantia que ele não fosse contar isso para alguém antes de ser levado ou até mesmo para a enfermeira antes de Alícia tomar conta dele. Se eu quisesse mantê-lo quieto, a melhor opção seria matá-lo durante o duelo, o que também seria simples com um golpe na cabeça. Porém, a luta estava sob o pretexto de ser uma competição amigável, se ele morresse durante a luta, isso causaria um monte de problemas. Não, esses dois jeitos não serviriam, eu precisava de alguma outra solução.

          — Eu devo dizer que não esperava ver um de vocês aqui — falou uma voz áspera com um tom arrogante.

Virando-me para a origem da voz, vi que o mercenário careca já havia vindo até o pátio, provavelmente também querendo se preparar para o duelo. Pelo seu tom de voz, era óbvio que ele estava confiante em sua vitória, provavelmente já deveria ter lutado contra Amaldiçoados antes. Mas isso não respondia como ele havia me descoberto tão facilmente. E, a fim de ter essa informação para evitar problemas com outra pessoa descobrindo meu segredo, decidi seguir o roteiro que ele havia pensado.

          — O que você quer dizer com isso? — respondi, usando o sotaque alábico mais convincente que conseguia fazer.

          — Não precisa manter o ato, pelo menos não agora — disse ele, se aproximando até ficar a uma distância um tanto quanto desconfortável de mim. — Eu já lutei contra Amaldiçoados antes, eu consigo ver nos seus olhos, no seu jeito de agir. Sempre atento, sempre pronto para atacar.

          Se ele era bom em leitura corporal, o problema seria menor, afinal de contas, nem todos deveriam ter essa habilidade de Amaldiçoados apenas pelo modo de agir. Mas alguma coisa no modo que ele estava falando me deixava nervoso, o que ficava ainda mais estranho com a distância quase inexistente entre nós dois.

          — Eu amo Amaldiçoados, sabe — continuou ele. — Eles são os soldados perfeitos. Conseguem seus poderes a partir do sofrimento alheio. Sim, eu os amo. Principalmente quando estão à beira da morte.

          O tom de voz dele agora estava parecendo ainda mais com o de um pervertido. Isso fez com que eu recuasse um pouco com nojo, mas ele deve ter pensado que meu movimento devia ter sido motivado por medo, pois seus olhos praticamente brilhavam enquanto falava.

          — Eu quero aprender sobre vocês, eu quero ser como vocês. Já perdi a contas de quantas pessoas já matei tentando usar Miasma. Por isso decidi matar vocês. Se eu assistir a Amaldiçoados morrerem o suficiente, vou aprender a absorver Miasma, não?

          Àquela altura, eu podia jurar que ele estava preste a pular para cima de mim, mas, com alguns alunos e seus guarda-costas começando a chegar para assistir o duelo, ele se limitou a dar um último sorriso antes de se afastar.

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