O Rei Negro

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          A missão nos dada era simples. Apenas patrulhar uma parte da fronteira entre as terras do Divino e Alabia. Sem nenhuma grande cidade por perto, a única coisa ao redor eram as vastas planícies de vegetação baixa e o pequeno posto mantido pelo Divino. O tipo de lugar para o qual mandavam grupos sem muita experiência de campo. Sem grandes chances de Resquícios ou Amaldiçoados passarem por perto.

          — Aaaaah. Mas que saco. Por que é que nós temos que ficar patrulhando esse fim de mundo? — perguntou Agnes, se inclinando para trás enquanto se espreguiçava. Seu tédio e frustação claros em sua voz.

          — Não podemos reclamar, nós acabamos de sair da academia, eles querem que nós tenhamos mais experiência antes de nos mandarem em missões mais importantes — respondeu Bowden, tentando acalmá-la.

          — E como vamos pegar experiência de campo se nada acontece por aqui? Tudo que fazemos todos os dias é ficar andando de um lado para o outro olhando o vento. Eu queria alguma coisa de verdade para fazer! Como limpar uma Masmorra, caçar Amaldiçoados, visitar um mercado. Qualquer coisa!

          — Reclamar não vai nos fazer sair daqui mais cedo. Só temos mais um mês até enviarem alguém para nos substituir — respondi.

          Não era a primeira vez que tínhamos aquela discussão. Na verdade, Agnes estava reclamando de nossa situação desde quando recebemos as ordens para ficarmos no posto da fronteira. Mas não era como se não entendesse como ela se sentia.

          Nenhum de nós havia entrado na Academia do Divino para ficar patrulhando o nada. Todos nós havíamos perdido alguma coisa para o Miasma ou aqueles que o usavam. Nós queríamos proteger outras pessoas, impedir que mais alguém sofresse sem necessidade. Ficar em um lugar como aquele era seguro para nós, sim, mas dificilmente era o que tínhamos em mente quando nos tornamos Escolhidos.

          Mas ordens eram ordens, e não estaríamos ajudando ninguém se ficássemos reclamando tanto ao ponto que decidissem nos mandar de volta para o treinamento básico para aprendermos a seguir instruções.

          — Ei, tem alguém vindo.

          O comentário de Agnes fez com que Bowden e eu déssemos um pequeno pulo de surpresa. Olhando na direção que ela havia apontado, percebemos um pequeno ponto se aproximando na distância. Não conseguimos ver mais nada, mas os olhos dela eram treinados para esse tipo de situação.

          — Alguém do posto? — perguntou Bowden.

          — Não está usando o equipamento padrão, então não.

          — Acompanhado?

          — Sozinho. Nenhuma bagagem.

          Senti um frio correr pela minha espinha. Nós estávamos no nada e a direção da qual a figura misteriosa vinha era um deserto. Alguém viajando sozinho e sem nenhuma bagagem dificilmente seria uma boa notícia. Bowden e Agnes perceberam também, pois ambos prepararam suas armas.

          — Acha que é um Amaldiçoado? — perguntei.

          — Espero que seja. Seria divertido ter alguma ação — respondeu Agnes com um tom mais animado em sua voz.

          — Não seja idiota. Vai ser melhor se conseguirmos evitar qualquer problema — repreendeu Bowden.

          Concordei com ele silenciosamente, colocando minha mão no cabo de minha espada. Nós já havíamos estado em combates antes, mas sempre acompanhados de um membro mais experiente. Se a figura misteriosa fosse mesmo um Amaldiçoado nós teríamos vantagem numérica, mas não seria bom arriscar.

Estrela MortaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora