Primeiro Passo

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          Quando a Kendra havia pedido para ficarmos no acampamento enquanto ela ia até o lugar onde o tal Luan estava, nós ficamos preocupadas, sim. Afinal ela havia descrito ele como sendo a "pessoa mais perigosa que já caminhou por esta terra", então esperávamos que alguma coisa acontecesse. Mas não esperávamos que essa alguma coisa fosse a Kendra voltar mancando para o acampamento com a cara inchada ao ponto de parecer uma grande uva.

          Ela não falou nada, talvez nem conseguisse, com as bochechas inchadas daquele jeito, só caiu nos braços da Gladys e desmaiou. A mulher entrou em pânico, correndo para dentro da barraca e tentando fazer alguma coisa para diminuir o inchaço.

          — Kendra! O que aconteceu? Foi o Luan? Uma emboscada? Quantos deles havia lá?

          Em todo o tempo que estivemos juntas, eu estava presenciando duas coisas que achava impossível: Kendra voltar com o rabo entre as pernas após levar uma surra e a Gladys se desesperando como uma mãe que viu o filho se meter na primeira briga. A situação era até que engraçada, mas a verdade era que, se a Kendra havia apanhado feio daquele jeito, nós tínhamos problemas mais sérios.

          Olhando para direção de onde ela tinha vindo, vi a torre no horizonte. Se havia sido uma emboscada, como Gladys parecia suspeitar, não deveria ser mais do que um pequeno grupo de pessoas. Nós estávamos no meio de um deserto, uma movimentação muito grande deixaria no mínimo um rastro de poeira se erguendo.

          — Tome conta dela. Eu vou ver se acho alguma coisa.

          Agarrei a Domadora e meu tridente, me preparando para sair. Não gostava de andar no deserto, mas a Gladys era péssima em fazer reconhecimento e deixar a Kendra sozinha naquele estado poderia ser um problema.

          — Onde você acha que está indo!? Olhe o estado da Kendra, não é seguro andarmos sozinhas se alguém foi capaz de deixá-la nessas condições!

          — Eu só vou dar uma olhada e ver se descubro o que aconteceu com ela, vou voltar assim que ficar perigoso. Só veja se consegue fazer a cara dela voltar ao normal.

          E antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, saí correndo do acampamento. Como esperado, tentar andar rápido na areia era problemático. Cada passo tinha que ser planejado para não usar muita força ou acabaria afundando no chão e fazendo tudo ficar mais demorado e cansativo. Kendra era a única que conseguia manter o meu ritmo, mas a Gladys parecia estar sempre com areia acima das canelas.

          Porém, a pior parte era não haver um único lugar para se esconder. Dizer que só iria fazer reconhecimento era fácil, agora pensar em um jeito de me aproximar da torre sem ser vista a metros de distância era o verdadeiro desafio. Poderia me esconder na areia e ir cavando, mas isso seria quente e sujo demais. Nada era mais irritante que areia dentro da roupa em um dia quente.

          Felizmente, havia uma duna próxima da torre. Abaixando-me atrás dela, escutei o som de gritos e metal se movimentando, cortando o ar. Aparentemente, havia mais gente na torre, e eles não pareciam amigos. Espiando por cima do monte de areia, logo reconheci o símbolo do Divino pintado nas armaduras de alguns soldados presentes. Junto deles havia outro soldado, usando uma armadura parecida, porém bem maior do que o resto, dando a ele a aparência de uma montanha de músculos. Executor, o mesmo estraga prazeres que Veraprata havia nos obrigado a levar junto quando fomos atrás do amigo da Kendra.

          Pelo que parecia, eles haviam encurralado uma pessoa próxima a um amontoado de pedras, cercando-a com as armas em punho. Não consegui ver muito bem os detalhes dele, já que os soldados não paravam de tampar minha visão, mas sentia que já havia o visto antes.

Estrela MortaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora