O Plano de Seth 03 (Artenis)

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A Ceifadora

— O quê?! Seus pais tão pensando em se mudar?! — perguntei, surpreso por ouvir aquilo.

— Sim... — falou Elizabete, com um tom de voz desanimado.

Nós estávamos conversando na sala de aula durante o intervalo, quando a Liza disse que tinha algo importante para me dizer depois que terminássemos de comer o nosso lanche, mas eu não imaginava que fosse tão importante assim. Aparentemente, seus pais decidiram que iriam se mudar de repente, e a Liza, claro, não estava contente com isso; muito menos eu, Liza era a única amiga que eu tinha naquela escola, se ela se fosse também... eu estaria completamente sozinho de novo.

— N-não pode ser... eles vão te levar também?

— Claro que sim, eles não me abandonariam.

— Entendo... Pra onde, então?

— São Paulo, eu acho... Eles não decidiram ainda.

— Como assim eles não decidiram ainda? — indaguei, confuso. — Não, espera... Por que eles querem se mudar? Não tem nada de errado com aqui, eu acho...

Nascente é uma cidade pacata, e, embora tenha seus problemas como qualquer outra cidade neste país, não parece ser um lugar ruim para uma família pequena de três pessoas morar, por isso, a decisão dos pais da Liza fazia ainda menos sentido.

— Não sei bem dizer... eles dizem que a gente já passou tempo demais morando aqui, que querem uma mudança de ambiente — explicou ela, vagamente.

— Mas vocês só passaram um ano e meio aqui, não foi? Não sei dizer, porque eu sempre morei aqui, mas isso não parece muito tempo pra mim... — falei.

Liza suspirou, parecendo cansada, então respondeu:

— Eu sei, mas... desde que eu era pequena, meus pais costumavam se mudar constantemente por causa de trabalho e outros motivos, o máximo que a gente ficava num lugar era um ano; sempre foi assim, então pra eles acho que um ano e meio já deve ser mais do que o bastante. Sinceramente, eu também não entendo eles.

— Nossa, quer dizer... Mas você já tentou conversar com eles sobre isso? Sua vida escolar deve ter sido complicada desse jeito, eles não podem te prejudicar assim.

— Claro que já, mas eles não me escutam, dizem que é pelo nosso próprio bem, que mudanças são coisas boas... Eu já tô cansada de falar com eles sobre isso, não sei mais o que dizer — disse ela, repousando sua cabeça sobre a mesa entre nós dois.

— M-mas e eu? Eu sou seu amigo, né?

— Hum? Sim, é claro, por que a pergunta?

— E-eu não quero que você vá... E se a gente parar de se falar? — perguntei, preocupado, sentindo minhas bochechas esquentarem um pouco.

Liza olhou para a rua lá fora através da janela ao nosso lado, pareceu ruminar sobre algo por alguns segundos, então voltou a olhar para mim e perguntou:

— Você tem celular, não é?

— S-sim, minha mãe me deu um faz um tempo pra caso eu me perdesse... Espera, você acha que eu sou tão associal a ponto de não ter um celular?!

— Não é isso, bobo. Pode me dar ele por um segundinho? — pediu ela.

— Hum? Claro... — Tirei o celular da minha mochila, jogada sobre a mesa, quando dei-me conta de algo importante. — Espera, a gente não pode usar celular na sala de aula.

— A gente tá no intervalo, não precisa levar isso ao pé da letra — lembrou ela, pegando o celular das minhas mãos. — Além disso, ninguém liga pra essa regra mesmo.

Maldições de SangueOnde as histórias ganham vida. Descobre agora