Um Novo Dia 06 (Marcelly)

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 O Jogo

Após ter dito aquelas palavras de agradecimento, Artenis se virou e deixou o quarto. Neste, então, só restaram meu pai, Leonardo e eu.

— Bem... — Otávio sorriu e se virou para mim enquanto arrumava seu jaleco, soube que ele iria me cobrar algo no mesmo instante. — Pode me contar o que aconteceu até aqui?

Seguindo a ordem dele, relatei tudo que eu havia presenciado e descoberto durante o desenrolar da missão até aquele momento nos mínimos detalhes, começando pelo ponto de onde parei no último relatório. Após ter lhe contado tudo, ele sorriu satisfeito e disse:

— Então foi assim... Entendo. Nem tudo saiu como eu esperava, mas, no fim, parece que deu tudo certo... Com exceção daquela vampira, Violeta, ter fugido. Acho que ela será uma pedra no sapato, mas depois vocês cuidam disso. Por enquanto, a missão está indo bem.

— Desculpe-me, mas a missão não já acabou? — perguntei. — Nós já nos livramos dos vampiros que estavam atrás do Artenis. Com exceção daquela vampira, claro, mas não acho que ela seja grande problema, afinal, Seth e Viktor estão no caminho dela, e acredito que eles dois sejam muito fortes.

— De fato, sim, mas todo cuidado é pouco. E a missão de vocês ainda não acabou. Lembrem-se de que o verdadeiro objetivo de vocês é vigiar o Artenis e mantê-lo sobre o nosso controle para que ele não escape quando as suas habilidades forem necessárias. Os vampiros foram só um empecilho, a verdadeira missão de vocês começa agora. Continuem frequentando a escola dele, quero que fiquem próximos dele para o vigiarmos de perto.

— Entendido... — assenti relutantemente.

Eu não queria realmente fazer aquilo, mas, já que eram ordens do meu pai, meu superior e um dos maiores líderes da organização para qual eu trabalhava, não havia escolha. Eu queria ficar perto do Artenis, mas não para vigiá-lo e controlá-lo, aquilo não era certo.

Mesmo assim, tudo continuava a seguir como Otávio planejara. Fazia um tempo que eu estava pensando numa maneira de ir contra os planos dele, mas não parecia haver saída. A influência dele e da organização era muito grande e estava por toda parte, não havia como escapar de suas garras. Eu me sentia um robô que só sabia seguir ordens e executá-las, meu pai me criara para ser assim.

"Mas isso não é maçante? Viver sob as expectativas de outra pessoa sabendo que pode muito bem nunca correspondê-las".

Eu ainda carregava as palavras daquela ceifadora comigo, e elas estavam certas, era mesmo maçante — era por isso que eu queria mudar.

Depois de ter passado por tanta coisa durante aquela semana, percebi que havia algo dentro de mim que não queria mais se conformar a isso, que eu já estava cansada — e foram Artenis e Leonardo que me ajudaram a perceber isso. Sua gentileza e sua coragem. Com a ajuda deles, eu tinha certeza de que conseguiria mudar também.

— Certo. Então, já esclarecido os fatos, irei para o meu escritório, vocês dois podem descansar. Até.

Otávio já caminhava até a porta enquanto dizia essas palavras, mas eu o segurei:

— Espera.

— Hum? O que foi? — perguntou ele, sem olhar para trás, ao parar na porta.

— Antes, você chamou o Seth de um "velho amigo", por acaso vocês já se conheciam? Qual é a relação entre vocês dois?

Otávio pareceu um pouco pensativo por um momento, no entanto respondeu:

— Sim, nós já fechamos um negócio no passado, apenas isso... e também foi ele que nos deu a informação sobre a existência de uma rede de tráfico de sangue aqui.

— O-o quê?! — perguntei, surpresa. — Então foi ele que nos trouxe até esta cidade?! Por quê?

— O motivo para isso eu não sei, Seth é um sujeito astuto, mas se eu fosse dar um palpite... provavelmente foi por causa daquele garoto, Artenis, ele já devia estar ciente de que havia vampiros atrás dele, mas provavelmente não podia lidar com eles sozinho, por isso nos levou a protegê-lo também sem o envolver diretamente — explicou Otávio.

— Aquele velho bêbado... até onde ele planejou isso tudo?

— Isso eu não faço ideia, mas, de todo jeito, nós devemos ficar de olho nele... Não quero que ele interfira nos meus planos mais do que já interferiu.

Após soltar aquelas palavras ameaçadoras, Otávio deixou o quarto sem nos dar mais nenhuma resposta.

— O que vamos fazer agora, Marcelly? — Leonardo, que tinha permanecido calado aquele tempo todo, perguntou.

— Por enquanto, seguiremos as ordens dele, mas verei o que podemos fazer depois.

— Entendo, então é um jogo...

— Um jogo?

— Entre o seu pai e a Violeta. É como uma guerra entre os humanos e as anomalias, mas eu não faço ideia de qual seja o verdadeiro objetivo do seu pai.

— Nem eu...

Pensando daquela maneira, aquilo era mesmo como um jogo, uma guerra silenciosa e cruel, em que Otávio e Violeta eram os jogadores, e, nós, suas peças. E ainda que Violeta tivesse perdido todos os seus peões, aquela havia sido apenas a primeira rodada. Havia a certeza de que ela se reergueria para iniciar uma nova.

Sendo assim, acho que o irmão do Leonardo estava certo em descrever o Artenis como sendo o "rei" deste tabuleiro — e é por isso que protegê-lo é o meu dever.

— Só espero que não haja necessidade de se fazer mais sacrifícios...

Maldições de SangueOnde as histórias ganham vida. Descobre agora