O Sangue de Artenis 07 (Artenis)

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Confronto Pela Verdade

Nunca conheci meu pai, nem sequer sabia como era ter um. Na escola, via as outras crianças sendo levadas para casa pelos seus pais e imaginava como seria ter um que me levasse para casa todos os dias também. Perguntava-me sobre isso todos os dias, e todos os dias eu perguntava a minha mãe sobre ele, no que ela sempre respondia:

"Não queira saber sobre ele. Seu pai nos abandonou, e isso é tudo que você precisa saber".

Com o tempo, aprendi a me conformar a essa resposta e parei de perguntar, mas aqui dentro, no fundo do meu coração, eu continuava a indagar: quem é meu pai? Por que ele me abandonou? Onde está ele?

Por conta dessa ausência paterna, desde pequeno tive de aprender a me virar sozinho, já que minha mãe trabalhava arduamente para me sustentar, e era devido a isso que ela vivia ausente também.

Por um lado, compreendia a ausência dela por causa do trabalho, afinal, era uma mãe solteira, e não tinha mais ninguém além dela que pudesse nos sustentar — nós estávamos sozinhos no mundo. Era grato a ela, ainda assim, eu não conseguia deixar de sentir um pouco de ressentimento por sua falta na minha vida já carecida de um pai.

E foi por causa disso que começamos a nos distanciar cada vez mais um do outro.

Nossa relação se tornou fria, distante, era como se houvesse uma cratera entre nós que se alargava cada vez mais. Nas vezes em que jantávamos juntos à mesa, não trocávamos sequer uma palavra a não ser que um de nós pedisse o sal ou algo assim. Era uma relação estranha para a de uma entre mãe e filho; mas ainda que fosse assim, minha mãe demonstrava se preocupar comigo — uma preocupação quase paranoica, eu diria.

Embora gostasse de saber que ela se preocupava comigo, eu achava sua proteção sufocante. Era como se ela estivesse me isolando do mundo exterior, e eu não queria viver assim. Queria conhecer o mundo, saber das coisas da vida e, principalmente, descobrir os mistérios à cerca do meu pai e de mim mesmo.

Por que eu via coisas que as outras pessoas não enxergavam? Por que nasci com estas habilidades tão estranhas e este olho sobrenatural? Quem é meu pai? De vez em quando, eu a perguntava essas coisas, mas ela sempre fugia dessas questões com respostas vagas e rodeios que não me levavam a lugar algum. Ela sempre me manteve nessa bolha de ignorância...

Mas finalmente havia chegado a hora de escapar dela. Para isso, tive de enfrentar minha mãe diretamente no que poderia ser a conversa mais importante da minha vida, onde tudo poderia mudar.

* * *

— Então você descobriu tudo, certo...? — disse ela, Adriana Louis, minha mãe, enquanto olhava para dentro da xícara de café que segurava em suas mãos. — Hum, não achei que esse dia iria chegar tão cedo...

Estávamos na sala de estar da nossa casa, sentados de frente um ao outro, cada um numa poltrona voltada à mesma mesinha de centro. O clima entre nós estava pesado, apenas o tiquetaquear do relógio pendurado na parede ressoava pelo ambiente. Sem hesitar, perguntei:

— Quem é meu pai? Ele... era mesmo um anjo? É por isso que tenho essas habilidades estranhas?

Ela calmamente bebericou um pouco de seu café e, de modo colocado, respondeu:

— Você ainda não é maduro o suficiente pra saber disso... Quando a hora certa chegar, eu prometo te contar tudo.

— E que hora é essa?! — exclamei, acabei por não conter minha insatisfação ante aquela resposta já esperada. — Já tenho dezessete anos, acho que sou maduro o suficiente pra saber!

Maldições de SangueOnde as histórias ganham vida. Descobre agora