O Sangue de Artenis 05 (Artenis)

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Minha Única Amiga

Acho que este seria um bom momento para se fazer uma pausa. Sei que é uma grande desfeita da minha parte fazer uma pausa na narração dos eventos atuais logo após um momento tão dramático, mas, confie em mim, é necessário, é algo que não posso ignorar. Isso porque, antes de prosseguirmos, é preciso falar sobre uma certa pessoa, uma pessoa cujo nome vinha girando minha cabeça por vários dias.

Elizabete Santos.

O nome da pessoa que mudou minha vida e meu modo de encará-la, a minha melhor e única amiga.

É também um nome que entrou para a lista de desaparecidos da cidade de Nascente.

Mas o que quero contar sobre ela não é sua ausência, mas sim sua presença, ou melhor, como ela veio a se tornar uma presença constante na minha vida.

Entretanto... por onde eu começo?

Quando me vem à cabeça a ideia de falar sobre ela, a garota que mudou a minha vida e depois desapareceu sem nenhuma explicação, não faço ideia de por onde começar. É difícil resumir em palavras a sua pessoa e a influência que ela teve em mim, e eu temo não fazer jus a ela e as suas ações. Não se engane, eu não a tenho como algum tipo de santa, Elizabete certamente tinha seus defeitos assim como qualquer outro ser humano, mas, quando penso no que sinto em relação a ela, quando penso nela, me encontro sem palavras para descrever meus sentimentos.

Sendo assim, acho que vou começar a descrevendo pelas características mais básicas dela, ou, pelo menos, as que mais se sobressaem.

Elizabete é o nome de uma garota que se transferiu para o meu colégio e entrou na minha turma no meu primeiro ano do ensino médio e que, em um período de tempo extraordinariamente curto, se tornou a garota mais popular da sala. Havia muitos motivos para isso, mas todos eles podem ser resumidos em uma única e singular característica.

Ela se destacava em tudo.

Começando pela sua aparência, que se encaixava nos moldes de uma modelo mirim: um metro e sessenta e cinco de altura mesmo aos quinze anos de idade (e ainda crescendo), um longo cabelo ruivo, olhos de um azul penetrante e um sorriso que parecia ofuscar o sol de tão brilhante.

Ela era uma craque tanto nos estudos quanto nos esportes, sendo admirada e adorada por ambos alunos e professores, uma verdadeira aluna exemplar.

E era por isso que eu... a invejava profundamente.

Sim, eu não fiquei encantado por ela logo de cara assim como a maioria dos garotos da nossa sala, pelo contrário, era por ela ser tão admirada e adorada que eu a via com certo desprezo. Isso porque ela tinha todos os atributos que me faltavam, seu brilho e popularidade me ofuscavam, chegavam a me cegar.

Contudo, a perspectiva que eu tinha dela mudou radicalmente um dia.

Aconteceu em um dia do mês de abril que não lembro qual era em específico. Era um dia comum de aula, e eu, como fazia todos os dias ao chegar na escola, estava subindo as escadas em direção à sala de aula designada para a minha turma, que ficava no segundo andar. Eu andava sem prestar muita atenção no meu caminho, com o olhar para baixo, subia os degraus um passo de cada vez.

Até que levantei a cabeça e a vi.

Subindo a mesma escada que eu subia, estando a alguns degraus à frente de mim, ela carregava uma pilha de livros em volta de seus braços finos alta o suficiente para que alcançasse a altura de seu rosto. Eu logo soube que ela era por conta de seu cabelo inconfundivelmente ruivo, que balançava amarrado em um rabo-de-cavalo atrás de sua cabeça a cada degrau que ela subia.

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