O Sangue de Artenis 03 (Marcelly)

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Segunda Chance

Quando abri meus olhos, encontrei-me deitada sobre uma cama; à minha frente, um teto branco e familiar preenchia minha visão. Levantei-me e olhei ao meu redor; meus olhos iam, aos poucos, se ajustando à claridade do ambiente.

Eu estava em um quarto pequeno com paredes brancas e móveis que eu podia contar nos dedos: uma cama beliche — na qual eu me encontrava deitada sobre o colchão superior— uma mesinha de centro, um closet e uma TV de plasma.

Aquele quarto era um bem conhecido por mim, pois era nele em que eu dormia fazia três meses.

Mas... como fui parar aqui?

Esforçava-me para me lembrar, mas, não importava o quanto tentasse, nada me vinha à mente. A última lembrança que tinha era a de ter embarcado com Leonardo em uma missão para proteger alguém... um garoto de tapa-olho com um nome estranho...

Após isso, mais nada. Era como se houvesse um muro bloqueando as minhas memórias.

Falando nisso, onde está o Leonardo?

Apesar de esta ser uma frase que parece ter sido tirada de algum romance barato, o rosto dele era o primeiro que eu via após acordar, ou pelo menos era assim que tinha sido naqueles últimos três meses, então por que ele não estava ali?

Decidida a descobrir o que estava acontecendo, desci do beliche e me dirigi até uma das duas portas do quarto, já que a outra levava a um pequeno banheiro, mas, para minha surpresa e frustração, ela estava trancada.

Eu estava trancada no meu próprio quarto.

Como? Por quê?

Embora eu sempre colocasse a chave da porta no mesmo canto, ela não se encontrava lá.

Como eu perdi essa chave? Será que alguém a pegou? Leonardo, talvez, mas não acredito que ele seja capaz disso, sair e me trancar dentro do nosso próprio quarto enquanto ainda estou dormindo seria cruel demais da parte dele. Sem falar que ele não faz nada que eu não o ordene, e não me lembro de tê-lo dado uma ordem tão ridícula quanto essa.

Portanto, decidi fazer o que parecia mais óbvio: procurar pela chave, já que talvez eu, num momento de descuido, podia tê-la perdido em algum lugar do quarto. Porém...

Procurei em todos os cantos possíveis, mas não a encontrei em nenhum deles.

Então, ainda que relutante, decidi que era hora de fazer uso de medidas desesperadas. Comecei a gritar e chamar por alguém o mais alto que podia. Bati, chutei e soquei a porta das formas mais barulhentas possíveis; mesmo assim, não houve resposta, e, mais surpreendente ainda, a porta sequer se moveu.

Essa é uma porta de ferro, mas ela não deveria ser tão resistente assim... Tenho certeza de que pelo menos um chute meu com força deveria ser capaz de arrombá-la ou, no mínimo, amassá-la um pouco, mesmo assim, nenhum deles surtiu algum efeito...

Mas o mais estranho é que, apesar de ter dado todos aqueles socos e chutes na porta, eu não me cansei ou senti dor alguma, era como se os meus golpes não tivessem surtido efeito nem em mim mesma.

O que está acontecendo aqui?

Parece algum tipo de pegadinha, mas quem faria uma coisa dessas? Meu pai? Não, acho que ele não me odeia a esse ponto, isso não é do feitio dele.

Então... quem?

— Eu, claro!

Pela primeira vez desde que eu acordara ali, uma voz que não a minha ecoou por aquele quarto, vinda bem detrás de mim. Era uma voz doce, infantil e meiga, mesmo assim, ela me assustou por ter surgido tão repentinamente, e eu me virei para trás.

Maldições de SangueOnde as histórias ganham vida. Descobre agora