Capítulo 65 - Mentirosa

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Quando conseguiu abrir os olhos, Celine constatou: o globo não sofrera dano algum. A esfera seguia imutável no chão de pedra, mas a Lâmina da Floresta se partiu ao meio e Dario soltou a espada enquanto caía de costas.

- Não! – gritou Celine correndo até o príncipe. Segurando-o em seus braços, a garota se desesperou ao perceber que a respiração quase desaparecia. – Ele está morrendo, Adriel!

O guerreiro olhou para o Ishtar procurando alguma resposta, mas a entidade não se manifestou.

- Não! – repetia a jovem. – Ele não pode morrer! Ele é forte demais para morrer assim! Por favor, não me deixe Dario!

O fervoroso pedido da garota pareceu surtir efeito, pois o príncipe abriu os olhos vagarosamente, como se pesassem toneladas. Com a respiração fraca e a voz desaparecendo, Dario olhou para Celine e perguntou:

- O... O globo quebrou?

- Não pense nisso, Dario. Guarde suas forças para sair daqui... – implorava a amiga, as lágrimas brotando nos olhos verdes.

- Ele quebrou? – perguntou novamente, agonizante.

- Não... – a jovem respondeu baixinho.

Dario sorriu um riso amargurado.

- Então não entendo... O que... ela queria?

- Não fale mais nada! Por favor! – Celine tentava limpar os olhos com um dos braços, enquanto o outro mantinha o corpo do capitão inclinado.

- Celine... Me desculpe... mas não poderei cumprir minha promessa... Não vou conseguir lhe responder sobre aquilo...

Celine estava prestes a desabar em lágrimas. Seu nariz escorria e sua respiração parecia falhar. O ar não chegava aos pulmões e a vista, embaçada, teimava em não enxergar nada. A jovem tentava falar, mas as palavras não saíam, apenas os soluços encontravam caminho pelo desespero.

- Adriel, por favor... cuide dela por mim... – pediu o príncipe. – E adeus...

Foram as últimas palavras que Celine ouvira do amado. Adriel a puxou para trás e a jovem tentava gritar e se debater, mas sentia a força se esvaindo. Em poucos instantes, os olhos finalmente se fecharam e desmaiou.

Adriel aproximou-se de Dario, agachou e certificou-se: o capitão estava morto. Na sala ao lado, examinou Mondegärd e constatou o mesmo. Sem falar nada, arrastou o corpo de Dario até a varanda, no local que achou mais apropriado e bonito. Ao lado do príncipe, deixou o corpo do amigo mago. Depois, desceu as escadas e, no salão principal, pegou o caminho leste. Foi até onde estava o corpo de Isa e a levou para cima. Ajeitou os três, um próximo ao outro.

Despediu-se uma última vez dos amigos e ajeitou o corpo inerte de Celine no ombro para carregá-la para longe dali. Ia descendo as escadas quando ouviu uma voz gentil.

- Você vai levar o globo? – perguntou o encapuzado.

- Dario não queria leva-lo, mas agora eu respondo pelo grupo. Então afirmo: este foi o nosso trato; você está livre.

- Obrigado – agradeceu o Ishtar. Então inclinou o rosto para cima e jogou o capuz para trás, exibindo a bela face de um homem de longos cabelos lisos e negros.

- Ainda posso fazer algo por você, se assim desejar – falou o Ishtar. – Posso levar-lhes até seu cavalo. Ele está próximo à floresta, sendo guardado por uma mulher.

- Seria de grande ajuda – Adriel respondeu. Pensou por um instante e voltou-se novamente para o Ishtar. – Não existe mais razão para este templo existir, certo? Por favor, se puder, enterre-o sob a terra.

- Assim será feito.

Adriel sentiu o corpo leve e desapareceu. No instante seguinte, estava ao lado de seu cavalo; a Floresta de Khunt atrás de si, mas não viu mulher alguma nas proximidades.

A tarde chegava ao fim e, ao olhar na direção da Cordilheira, viu uma grande nuvem de areia levantando-se no horizonte. O templo não seria mais encontrado. Gerolt, Isa, Mondegärd e Dario teriam seus corpos enterrados, como mandava a tradição dos Homens daquele tempo. "Perdoem-me, mas é tudo que posso fazer por vocês agora", lamentou.

O corpo de Celine foi ajeitado no cavalo e Adriel montou em seguida. Guardou o globo na bolsa de Gerolt, que ainda carregava consigo, e rumou em direção ao norte. Enquanto voltava para o reino, o guerreiro lembrou-se dos amigos; lembrou da noite sentados em torno da fogueira, das brincadeiras com Celine, das repreensões de Isa, da cara amarrada de Gerolt e do raro senso de humor de Mondegärd; Dario fora um líder justo e que acreditou até o final em seus comandados.

Adriel fechou a cara e prometeu não chorar pelos que morreram, mas sorrir pelos momentos felizes que viveram juntos. Desnecessário dizer, não demorou muito para ele descumprir a promessa.

Era Perdida: O Globo da MorteLeia esta história GRATUITAMENTE!