Capítulo 40 - O sinal de Meriedro

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- Deuses! É um esqueleto!

- Controle-se Celine! – rasgou Isa. – Por que é sempre você?

- Parem as duas – intrometeu-se Dario.

Encostado na lateral direita de uma larga escada localizada no centro do grande salão de pedra, havia o esqueleto de – provavelmente – um ser humano sentado ao chão. Adriel olhou de perto e mexeu na ossada. Celine entortou a cara e jurou nunca encostar nos ossos de outrem.

- Realmente parece um ser humano... – concluiu Adriel. – Era um homem alto, aparentemente.

- Ainda há vestígios de seus trajes. – Isa apontou para rasgos de pano no entorno do esqueleto.

Todos matutaram a quem pertenceria a desagradável ossada.

- Será que é o Meriedro? – arriscou Celine.

- Bem possível – concordou Mondegärd. – Isso explica o fato dele não ter retornado, como Meselson contou ao capitão...

- Aahh!! – O grito de Celine interrompeu o mago. – Ali atrás da coluna da escada! Olhem!

Ao se virarem, viram um dos ossos flutuando por trás de uma coluna que ia do início da escadaria central até o teto do salão.

- É só o Adriel... – esnobou Isa, maneando a cabeça em reprovação.

- Seu idiota! – gritou Celine, furiosa, indo em direção ao companheiro.

- Cuida... – Dario começou a falar quando, sem prestar atenção, a jovem irritada acabou pisando no esqueleto e os ossos deslizaram estatelando-se no piso do pedra.

- Deuses!

- Tome cuidado, sua... – ia ralhar Isa quando notou algo sob a ossada. – Ah... Tem um papel aqui. – E pegou o papel, entregando a Dario em seguida. – Veja, capitão. Estava escondido sob os ossos...

O bilhete era velho e foi escrito em tinta preta; a letra impressionava pelo detalhe e bela caligrafia. Sem delongas, Dario pediu permissão e com a aprovação dos amigos leu o recado.

“Bem-vindo, amigo. Se está lendo este bilhete, provavelmente o encontrou sob meu corpo. Não quero lhe chatear com palavras desnecessárias, entretanto, talvez seja o único a saber de mim nestes momentos fatídicos. Caso esteja correto meu pensamento e você realmente seja um estudioso ou aventureiro, já deve ter ouvido falar de mim. Meu nome é Meriedro e sou conhecido pela alcunha de Recuperador. Em minha vida como tal encontrei os mais incríveis artefatos existentes neste mundo. Visitei localidades únicas tanto no Leste, como no Sul e até mesmo – acredite – no Norte. Entretanto, mesmo dotado de talento, conhecimento e experiência muito acima da média, sempre evitei a Cordilheira. Sabia que aqui seria meu fim, fosse como ser vivo, fosse como aventureiro, de forma que escolhi esta missão como minha última. E veja o que me ocorreu: derrotado logo em minha derradeira tarefa.

“Se chegou até aqui, é porque superou as armadilhas que deixei no caminho e outras implementadas pelas próprias forças deste terrível local. Saiba que nem tudo posso lhe explicar, porém, não há necessidade de começar de onde comecei. Quero que prossiga de onde parei e faça o que não consegui. Não faço por altruísmo, faço por amor próprio, pois sinto que meu espírito só deixará este templo de pedra quando o mistério for resolvido.

“Este salão é tanto o ponto inicial quanto o ponto final de sua jornada neste templo. Nesta escada, onde me escoro e escrevo esta carta, está o acesso para um novo andar e tudo indica estar ali o que viemos buscar: o tão desejado artefato. Tão perto e tão longe, você logo perceberá. Pois a grande porta dupla de pedra é, agora, intransponível. Tentei violá-la de todas as formas e nenhuma surtiu efeito, mesmo mínimo. A chave para a abertura desta passagem encontra-se – acredito – na porta atrás da ponte guardada pela armadura.

“Explico: ao seguir o caminho a leste, encontrarão uma espécie de tanque repleto de veneno. Acreditem, eu experimentei. E talvez seja esse o motivo da minha morte. Enfim, é possível cruzar o charco envenenado por uma ponte estreita de pedra onde cabe somente um homem ou mulher. O desafio, entretanto, reside em uma armadura viva que guarda a passagem por trás da ponte. Ao pisar na plataforma, a armadura ganha vida e lhe enfrentará até a morte. Não tente passar por ela sem lutar, nem por cima, nem pelos lados – eu já tentei, e acabei atirado ao veneno. Não tente cruzar nadando ou morrerá – como eu. Desejo-lhe boa sorte na empreitada.

“No corredor a oeste não existe perigo algum ou todos os perigos do mundo – depende de cada um. Para mim, o local foi tão limpo como minha consciência. Muito fiz neste mundo, mas nada do qual me arrependa. Espero que o mesmo aconteça a você – amigo. Infelizmente, a recompensa para uma inteireza de caráter não passa de um espelho. Não há magia nele, certifiquei-me, e não encontrei utilidade para o objeto, de forma que o deixei em seu local de origem.

“Por último, peço para que tenha cuidado com o local. Há uma criatura a protegê-lo incansavelmente. Durante a noite, é possível ouvi-lo falar em línguas desconhecidas. Pelos meses que aqui passei pude notá-lo várias vezes, falando e rezando trechos de canções ancestrais que nunca conheci. Algumas delas falam de um antigo globo dotado de grandes poderes não revelados.

“Agradeço a paciência e desejo-lhe, uma vez mais, sorte na missão. Provavelmente você não poderá me ver, mas estarei aqui como espirito atormentado a vagar sozinho por estas paredes até ter o desejo atendido.”

Era Perdida: O Globo da MorteLeia esta história GRATUITAMENTE!