Capítulo 35 - O valor de uma vida

635 82 10

Isa não viu o que aconteceu, pois estava focada em atravessar o abismo. Sem contar com a ajuda de Adriel, paralisado, a guerreira atirou-se na terra e garantiu a sua própria sobrevivência e a do capitão Dario.

- Não! – gritaram Celine e Adriel! – Gerolt!

Levantando-se com muito esforço, já que o capitão ainda estava preso ao seu corpo, Isa notou a ausência do amigo careca e entendera tudo rapidamente. Gerolt era a causa por trás dela não ter sido derrubada em um precipício. Pouco pensou no ocorrido, entretanto.

- Ajudem o Monde antes que o maldito gromav arremesse o outro braço!

O berro da companheira tirara Adriel do torpor e este agarrou Mondegärd pelo braço e acelerou sua travessia o puxando com força para a terra firme.

- Agora corram! Vamos sair daqui!

As palavras de Isa não foram suficientes. Estavam todos paralisados. A mulher resmungou alguma coisa e deu um empurrão nos três.

- Vamos logo! Corram! – insistiu, até que finalmente eles obedeceram e correram para longe do abismo.

Os cinco guerreiros se afastaram o mais rápido que puderam e quase foram atingidos pelo braço do monstro, arremessado como dois grandes blocos minerais. Protegidos por uma curva, todos se jogaram no estreito corredor e caíram deitados.

Protegidos e livres da ameaça do gigante de pedra, Isa desamarrava Dario quando falou:

- Ele não vai conseguir nos alcançar aqui... – A voz da mulher era fria e seca.

Irritado, Adriel levantou-se de supetão e gritou com a amiga:

- Olhe aqui, Isa! Você entendeu o que acabou de acontecer?! O Gerolt se matou para salvar você! Por que está agindo como se nada tivesse acontecido?! – Os olhos do oficial eram uma mistura de raiva e descrença.  

Isa colocou Dario com calma no chão e se virou para Adriel.

- Gerolt era um grande guerreiro, mais valoroso que nós dois. – Depois fez uma pausa e voltou a falar com a voz embargada. – Ele tinha experiência, força e espírito. E se matou porque sabia que era o único capaz de nos salvar. Na verdade, ele nem tinha certeza! Ele sabia que aquela pedra não ia quebrar e se atirou mesmo assim. Graças a ele, agora estamos aqui. Ele se sacrificou por nós! E eu respeito a decisão dele! E você?!

As palavras da mulher calaram Adriel. Celine chorava, ajoelhada ao chão. Mondegärd permanecia calado, sentado com as costas apoiadas na montanha. Seu semblante mostrava que ainda não havia entendido o que acabara de ocorrer com o melhor amigo. Por minutos, ninguém emitiu palavra alguma. Todos respeitaram o momento e cada um, à sua maneira, agradeceu Gerolt por ter-lhes salvado a vida.

- Ai minha cabeça... O que houve?

- Dario! – agitou-se Celine. A jovem levantou esbaforida e foi até o comandante. Com calma, ajudou-o a se sentar.

- Obrigado, Celine. Mas o que houve? O que aconteceu depois que fui atingido pelo gromav? Vocês me carregaram até aqui?

Todos olharam-se com pesar, mas ninguém teve coragem de contar. Mondegärd, enfim quebrou o silêncio.

- Conseguimos fugir do gromav atravessando um precipício, mas Gerolt se atirou no desfiladeiro para nos salvar quando o monstro atacou uma pedra em nossa direção bem quando cruzávamos o abismo.

Os olhos de Dario arregalaram-se e o comandante fechou a cara. Não fez outras perguntas ou comentários. Apenas levantou-se e bateu as mãos nas roupas para tirar o excesso de terra. Celine ficou em silêncio e tentou chegar perto, mas não teve coragem.

O príncipe tomou a dianteira e esperou que todos se levantassem. Enquanto aguardava, as palavras de Enya ecoaram em sua mente: “Sua missão irá falhar, príncipe Dario”, dissera a descendente dos Saymain na Floresta de Khunt. Na ocasião, desafiara-a, prometendo vencer a Cordilheira e voltar com os amigos são e salvos. Com a morte de Gerolt, a segunda parte do desafio estava perdida. Vencer a Cordilheira era sua única opção. “Mesmo que isso custe a vida de mais algum de meus comandados?”, perguntou-se, sem chegar a qualquer resposta.

Aos poucos e cada um em seu tempo, os guerreiros se aprumaram e pararam atrás do capitão, em silêncio. De costas aos integrantes da companhia, Dario disse soturno:

- A relíquia de Meselson e a cobiça de meu pai cobraram seu preço. Um preço alto demais para calcularmos seu valor. O que me entristece, companheiros, é que o pagamento pode ainda não estar completo. A dívida pode ser ainda maior. Cada um de vocês, esteja preparado... Esteja preparado para custear a parte que lhe cabe no preço desta missão, para quitar sua parcela no débito da morte.

Todos engoliram seco. Mais alguém teria o mesmo destino de Gerolt? Quem seria o próximo?

Era Perdida: O Globo da MorteLeia esta história GRATUITAMENTE!