Capítulo 36 - Caminho estreito

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Com a ameaça do gigante rochoso superada, ao menos aparentemente, o grupo prosseguiu cauteloso. Naquele trecho, nem três pessoas cabiam uma ao lado da outra. O caminho era extremamente estreito e escuro. Andando juntos e um passo por vez, penetraram fundo no estreito vale. O espaço desaparecia progressivamente, assim como a luz, que começara a ceder.

- Está ficando escuro...

A colocação de Adriel não teve resposta; nem mesmo uma brincadeira do tipo “Verdade? Não me diga!”. Estavam todos tristes com a morte de Gerolt e preocupados com os próximos desafios que surgiriam a qualquer momento.

Entre eles, apenas Mondegärd já havia cogitado a possibilidade real de alguém morrer. Nem mesmo Dario esperava em seu íntimo perder sua vida ou a vida de um de seus comandados. Para o príncipe, guerreiros daquela tropa de elite estariam preparados para qualquer desafio que aparecesse. Treinava com eles quase diariamente em Targodriath e sabia do valor de cada um como oficial.

Dentre todos esses pensamentos, o que mais perturbava Dario era o fato de estar desacordado quando tudo aconteceu. “Como pude ser tão tolo, tão frágil?”, matutava, tentando encontrar respostas para seu descuido na luta contra o gromav. Para ele, tudo teria sido diferente se não tivesse desmaiado.

Indiferente aos tormentos de Dario, o caminho seguiu e estreitou-se até caber apenas uma pessoa. Em fila e sem espaço nas laterais, não era mais possível se desviar das rochas no chão. Era preciso passar sobre elas e até escalar as maiores. Assim, o ritmo foi comprometido e muito tempo e passou sem chegarem a lugar algum. O trajeto era penoso especialmente para Mondegärd. O mago estava mais cansado que o habitual. Celine achava que era por causa de ter usado todo seu poder mágico, mas também poderia ter algo a ver com a morte de seu melhor amigo. “Claro que tem, sua tonta!”, repreendia-se enquanto pensava no amigo.

Felizmente, Gerolt tinha se desfeito de sua bolsa de tranqueiras antes de pular. “Até nisso ele pensou”, todos amarguraram. Nela eles encontraram um pedaço de madeira dobrável e um acendedor metálico: era um conjunto de tocha portátil. Sem ela, seria preciso esperar o sol nascer para continuarem a marcha.

- Quero sair logo daqui. Tenho a impressão que passamos pelas mesmas pedras duas e até três vezes – bufou Isa. Suas pernas doíam, pois era cansativo escalar pedras de armadura.

- Você pode tirar sua armadura, Isa... – lembrou Adriel.

- Está louco?! Um guerreiro tem de estar prevenido a todo momento. Não me estranharia se você fosse o próximo...

Isa parou instintivamente e sentiu um aperto no coração. Sua brincadeira fora desrespeitosa além do extremo. Ninguém disse nada, entretanto.

De qualquer forma, tirar suas proteções metálicas era impensável para a guerreira. Sem armadura completa, Isa sentia-se nua.

- Então... Concordo com a Isa quando ela diz que já vimos estas pedras antes... Também acho – venceu o silêncio Celine. – E se estivermos perdidos andando em círculos pelo mesmo caminho diversas vezes? Nunca sairemos daqui assim!

- Duvido, mas não podemos descartar a possibilidade.

Dario estava convicto de que o caminho os levaria para a relíquia que Meriedro falhou em recuperar. “Será que Meriedro morreu lutando contra o gromav?”, pensou Dario.

O maior dos problemas na opinião do capitão era o frio. Os ventos fortes e gélidos diminuíam a sensação térmica de minuto em minuto. Se a queda de temperatura prosseguisse naquele ritmo, seria preciso acampar em breve.

Celine foi a primeira a reclamar:

- Nossa, gente... Que frio... Parece que o vento está cortando minha pele.

A jovem usava a roupa mais leve entre os aventureiros do grupo: uma blusinha de manga curta e um shortinho sob uma saia; as luvas compridas até o cotovelo e as meias que se elevavam até os joelhos ajudavam, mas boa parte do corpo estava exposta diretamente ao vento.

Dario parou repentinamente e Celine trombou em suas costas.

- Uma bifurcação... – avisou o capitão.

- E agora, Dario? – perguntou Celine, apreensiva.

- Vamos dar uma olhada! – adiantou-se Isa.

Todos dividiram-se e tentaram enxergar o máximo possível, mas só haviam duas tochas. Dario e Isa andaram alguns metros seguindo cada um um dos caminhos. O príncipe seguiu a passagem da direita, deixando a outra para Isa. Pouco tempo depois, o som dos ventos foi abafado pelo grito da guerreira:

- Rápido! Venham ver!

Era Perdida: O Globo da MorteLeia esta história GRATUITAMENTE!