Capítulo 21 - Eu gosto de você!

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A jornada de Dario e seus comandados seguiu-se por dias e noites, quase sem parada. Preocupado em recuperar o tempo perdido na cidade de Menfatz, o jovem comandante pressionava seus subordinados ao limite de suas forças, sem alimentação ou descanso. Dormiam não mais que três horas por noite e raramente desciam dos cavalos. Quando o faziam, não montavam acampamento e apenas os animais recebiam provisões. As refeições eram feitas enquanto trotavam.

Durante esta etapa da viagem, deixaram o reino de Mylstain – onde viviam – e passaram pelas Cidades Livres. Essas cidades ficavam entre o reino de Dario e o reino de Dehör. Os povos dessa região não possuíam reis e faziam suas próprias leis. Muitas delas escondiam escravos e abusavam dos pobres para fazer a elite detentora do poder econômico cada vez mais poderosa.

No topo da pirâmide econômica, política e social estavam os Comerciantes. Estes eram um seleto grupo de milionários que estendiam sua influência por todas as regiões onde haviam humanos, por mais distante e inóspita que fosse. Sem ética, participavam de qualquer empreitada que gerasse mais riquezas para seus já imensuráveis cofres.

Nesta etapa do trajeto, o grupo beirou a rica e imponente cidade de Naglorändill. Como era de se esperar, Adriel sugeriu que descansassem uma noite por lá, após tantos dias em grande esforço.

Desta vez, entretanto, foi derrotado na votação. Apenas Isa ajudou o guerreiro em sua tentativa de repousar em uma cama macia e cheirosa.

- O importante é tentar... – falou Isa para o amigo, tentando animá-lo.

- Desta vez não deu certo. Não sei o porquê... – respondeu Adriel, pensativo.

 - Talvez o fato de muitos de nós quase morrermos em Menfatz pode ter contado negativamente – sugeriu Isa, irônica.

Adriel bufou em resposta. Infelizmente, continuariam dormindo no “meio do mato” como ele próprio costumava dizer.

A carga era especialmente fatigante para Mondegärd, que tinha já mais de cinquenta anos – quando a maioria dos homens do reino viviam pouco mais de quarenta.

- Senhor comandante, preciso fazer uma pausa – pediu o mago.

- Está bem. Paramos aqui por hoje.

- Graças aos deuses e suas bênçãos! – comemorou Adriel, arrancando risadas de todos. Mesmo no meio do mato, descansar era melhor do que cavalgar no lombo duro de um cavalo.

- Calma, mocinho, já está chegando a hora da papinha – brincou Isa.

- Vou preparar a janta! – entusiasmou-se Celine.

Todos comemoraram, mesmo Celine não sendo a melhor cozinheira entre eles – pior do que comer a comida dela, seria ter que providenciar uma refeição para seis pessoas que comiam como cavalos.

A jovem desceu da cela e deu uma olhada em volta. Em seguida, falou apontando para um bosque afastado:

- Dario, pode me ajudar a pegar algumas frutas naquelas árvores ali?

- Claro, Celine.

Isa e Adriel cutucaram-se e a mulher emendou:

- Não perde uma, hein, mocinha?

- Claro que não. E nem pode perder – ajudou Adriel. – O cara é um príncipe! Imagina a concorrência...

- Blá blá blá... – corou Celine, olhando para o capitão.

- Não ligue para eles, Celine. Eles falam isso porque, na verdade, eles dois são os namoradinhos do grupo.

- Eca, comandante! – reagiram os dois fanfarrões.

Enquanto Isa e Adriel brigavam para saber quem dos dois daria o fora no outro primeiro, Celine e Dario entraram na floresta; Gerolt e Mondegärd acenderam uma fogueira e prepararam as tendas – dormiriam sob elas pela primeira vez em dias.

Os dois caminharam juntos cerca de dez minutos e adentraram o bosque. O capitão estranhou o fato da companheira não ter falado durante todo o caminho. “Geralmente ela é mais falante”, pensou.

O silêncio não persistiu, entretanto. Enquanto usavam galhos longos para cutucar frutas, a jovem aproximou-se dele.

- Sabe, Dario... O que eles disseram agora? – iniciou a conversa a jovem arqueira, olhando para as árvores.

O príncipe corou e ficou um tanto atrapalhado.

- Não se preocupe com isso. Eles estão apenas nos atazanando...

Celine então parou, olhou para o chão e chutou uma pedra. Dario interrompeu a busca e olhou para a jovem, que respirou fundo e disse, trêmula:

- É que... É verdade o que eles disseram...

O capitão ficou sem reação.

- Eu gosto de você, Dario!

Era Perdida: O Globo da MorteLeia esta história GRATUITAMENTE!