Capítulo 44 - Maiêutica

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- Tenha calma, príncipe Dario – falou o homem em pé.

- Não tenho tempo para os senhores. Tenho que pegar o espelho.

- Você está ansioso? – perguntou calmamente o velho sentado em sua cadeira de balanço.

- Como posso não estar? Muitos perigos nos rondam e você continua me fazendo perguntas! – O movimento repetitivo do velho em sua cadeira passou a irritar o príncipe.

- Está com medo dos perigos? É por conta deles esta ansiedade?

- Também! Algo pode acontecer com meus amigos enquanto estamos aqui de conversa-mole!

- É sua responsabilidade protegê-los? Como príncipe ou como comandante?

- Isso não importa!

- Ora, jovem, o motivo de sua ansiedade não importa?

Dario arfava de tanto nervosismo. A conversa parecia dar voltas e voltas sem chegar a lugar algum. Mesmo assim, respirou fundo e tentou reaver a calma.

- Por favor, senhor. O que você quer?

- O que você quer?

- Você já sabe. Quero o espelho.

- Por quê? Para pegar o artefato, que é sua responsabilidade recuperar?

- Recuperar o artefato não é minha responsabilidade. Minha responsabilidade é comandar meus oficiais em missões de alta periculosidade. É apenas isso.

- É para isso que vive? Para ser comandante?

- Claro que não. É apenas uma das minhas responsabilidades.

- E quais são as outras?

- As outras? – Dario pensou por um tempo. – Ser um bom príncipe é outra delas...

- Pois então vive apenas para cumprir responsabilidades, como comandante ou príncipe?

- Não...

O comandante tentou retrucar, mas nenhuma resposta encontrou para a aferição do velho. Acuado, por um momento Dario questionou suas ambições naquele lugar. “Por que estou arriscando minha vida e de meus amigos neste lugar?”. Seus pensamentos, no entanto, foram ouvidos por todos, como se tivessem sido ditos em voz alta.

- Esta é uma boa pergunta. Por quê? – quis saber o velho.

- Não... Eu não... – Dario logo percebeu que não haveria como fugir do questionamento, então pensou por uns instantes e finalmente encontrou a resposta que procurava, afirmando resoluto. – Eu tenho muitos objetivos, como ser um grande guerreiro, um homem justo e um exemplo para meu povo.

- Essa é sua vontade?

- Sim, é minha vontade.

- Esta missão ajuda-o a cumprir seus objetivos?

O príncipe parou novamente e pensou seriamente nas palavras do velho. O que aquela missão significava para ele? Nunca tinha pensado nisso até aquele momento. Quanto mais pensava, mais tudo aquilo parecia errado e ilógico. Lembrou-se da morte de Gerolt e culpou-se pelo ocorrido. “Se não estivéssemos aqui, ele ainda estaria vivo...”, reprimiu-se. Uma nuvem tomou seus pensamentos de forma que não conseguiu responder ao velho. Mesmo assim, tudo o que passou em sua mente era visível para os outros dois na sala.

- Não adianta se esconder no silêncio das palavras, príncipe Dario. – falou o velho, os olhos cansados fixados nos do príncipe. – A pura verdade é que você foi criado em berço de ouro e mimado a vida toda, tornando-se um homem sem vontade própria. Cresceu sob a sombra de seu pai e tentou das mais variadas formas livrar-se dessa escuridão, pois queria ser notado. Estudou como poucos e batalhou como nenhum, realizou missões das mais perigosas e as sobrepujou como herói, mas seus objetivos nunca foram nobres. Desde o princípio, sua intenção é apenas tornar-se alguma coisa própria, diferente do que o destino lhe propôs. No entanto, suas ações o levam para o caminho oposto: quanto mais se esforça para fazer o que lhe ordenam, mais se une a presença do seu pai. Suas “responsabilidades”, como diz, não são reais. Você as criou para legitimar seu intento egoísta. E, pior, egoísta e burro, pois te leva para perto do que pretende fugir.

As palavras do velho pareciam a estocada de uma lança afiada. Dario foi ao chão e não teve coragem de olhar para cima. Se levantasse a cabeça, os olhos do velho seriam como um espelho a desnudar verdades nunca antes contempladas por sua mente.

- Você quer o espelho? – retomou o velho. – Então o leve. Mas lembre-se: este é um espelho para se ver espíritos e não o corpo. Apenas um segundo é o suficiente para desvendar-lhe os recônditos do seu interior. Quando olhá-lo, esteja preparado para enfrentar os demônios do coração. Enquanto o espelho estiver com você, não há como esquecer desta conversa que tivemos e nem as verdades que seu coração apreendeu aqui.

Dario estava desesperado. A voz do velho feria lhe o interior.

- Não! Não quero o espelho! Fique com ele! Apenas deixe-me sair daqui! – gritou o príncipe.

- Entretanto, não é só isso... – A voz do velho tornara-se grave e ameaçadora.

- O que quer dizer? – perguntou Dario, agoniado.

- Ao deixar o espelho, aqui permanecerá também seu espírito.

Dario suava frio, uma dor tomara o interior e sua mente perdera-se em pensamentos amargos, de forma que não entendeu as últimas palavras do velho. “Quero apenas sair daqui”, pensou.

- Muito bem. Que assim seja.

Era Perdida: O Globo da MorteLeia esta história GRATUITAMENTE!