Capítulo 11 - Garota do fundão

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Os cinco guerreiros olharam-se.

- Senhor, com certeza trata-se de comércio ilegal de seres vivos – pontuou Mondegärd.

- Concordo com ele. Inclusive, posso imaginar que o tal mercador a trouxe de alguma cidade da costa leste e ia direto para as Cidades Livres – acrescentou Gerolt.

Dario ficou em silêncio por uns momentos e se virou para Isa e Adriel:

- E vocês? O que acham?

- Comandante, não tenho experiência como eles, mas penso o mesmo. Não acredito que existam nobres em nosso reino com coragem suficiente para traficar seres vivos. A lei que proíbe moradores não-humanos em Mylstain é conhecida em todos os cantos do reino...

As palavras de Isa foram interrompidas por Adriel.

- Já nas Cidades Livres, como Naglörandill, eles possuem suas próprias regras. É conhecido de todos que essas cidades possuem nobres cheios da grana – pois não pagam impostos – e antiéticos, já que as leis são feitas, geralmente, pelos próprios magnatas.

Todos pensaram um pouco mais no caso, enquanto Dario foi até o quarto onde Celine estava trancada e bateu à porta.

- Ei, Celine! Sou eu...

A voz abafada cruzou a porta embargada.

- Oi, Dario. Desculpa, capitão... Não quero conversar agora...

- Celine, por favor, deixe-me entrar. Só eu.

A porta abriu apenas uma pequena fresta. O olho esquerdo da jovem ficou visível – estava vermelho.

- Posso entrar?

- Pra que? – falou, manhosa, a garota.

- Para conversar...

A garota bufou, mas abriu a porta, fechando logo em seguida, enquanto os outros olhavam xeretas.

- Essa menina, viu... – reclamou Isa.

- Pode usar o arco-e-flecha como ninguém, pode ser rápida como poucos, entretanto, ainda falta maturidade naquela cabecinha...

A consideração de Mondegärd provocou risos em todos.

Sentando-se na cama com Celine, Dario ficou em silêncio e deixou a moça começar.

- Desculpa, Dario... Não queria agir assim, mas não gosto quando eles não me respeitam...

A moça estava de cabeça baixa, pernas cruzadas e batendo os dedos de uma mão nos dedos da outra, aparentemente envergonhada.

- Você está certa, Celine. Eles são uns engraçadinhos...

A moça deu um leve sorriso, pois o capitão tinha sido muito espontâneo. O próprio Dario prosseguiu.

- Para que isso não ocorra novamente – pelo menos não no mesmo tema – quer que eu lhe fale sobre os kanayrs?

A moça não gostou muito da pergunta do príncipe. Tocar no assunto que causara o desentendimento a deixava incomodada. Mesmo assim, venceu o orgulho e fez que sim, apenas com a cabeça.

- Como qualquer outro soldado do reino você teve treinamento nas mais variadas disciplinas, não é? Desde que assumi a Armada Oficial há três anos, obriguei todos os soldados a terem aulas de geografia e história como parte do treinamento. Você também fez, não é?

- Fiz, sim. Mas nunca prestei muita atenção nas aulas. Passei raspando! – disse a garota sorrindo e mostrando a língua. Dario riu.

- Não importa. Isso é muito simples. Você sabe que a raça humana não é a única inteligente em nosso planeta, certo?

- Claro! Existem muitas.

- Exatamente. E os kanayrs fazem parte de uma dessas raças. Eles são bem parecidos com os seres humanos. Eles nascem, crescem e morrem, assim como nós. A única diferença é que um kanayr é meio-humano e meio-animal.

- Tipo essa moça da banheira? Que é meio-mulher e meio-peixe?

- Exatamente. Existem muitos tipos de kanayrs, como homens-tigre, homens-urso e homens-pássaro. Eles podem ter pelos, cascos, garras, presas, caudas e muitas outras composições que são comuns aos animais. Essa moça possui a cauda de um peixe e pode respirar sob a água.

- Isso é bem estranho... – fez uma careta Celine.

- Pois é. Existem raças ainda mais estranhas em nosso mundo. A culpa de você não as conhecer é de meu pai e dos meus antepassados. Há centenas de anos é proibido que outras raças habitem nosso reino. Por isso você, que só trabalhou na capital e na região, nunca as viu.

Celine impressionou-se com a sabedoria do capitão: “Como um jovem de 21 anos sabe de tanta coisa? Parece até um velho...”. A garota não aguentou e perguntou.

- Dario, como você sabe dessas coisas?

O príncipe ficou um pouco incomodado com a pergunta da amiga. Celine não entendeu o porquê, mas logo ele começou a falar.

- Diferente de você e da maioria dos habitantes do reino, eu tive muitas oportunidades para estudar. Morei em Dehör por alguns anos, enquanto treinava minhas técnicas de batalha. Além disso, tive aulas com professores renomados desde muito pequeno. Resumindo, sou um jovem mimado...

Celine entendeu por que a pergunta o incomodara. A jovem percebera que Dario não se sentia bem em ser príncipe.

- Comandante, você é um sujeito muito especial... – Dario assustou-se e ficou sem jeito. Antes que pudesse falar, entretanto, Celine continuou. – Estou me sentindo melhor. Muito obrigada! E agora sei que kanayr é um meio-humano e meio-animal. Certo! Podemos continuar!

Dario levantava da cama enquanto Celine se espreguiçava, quando batidas foram ouvidas na porta.

- Capitão! A mulher-peixe! Acho que ela está morrendo!

Era Adriel. O soldado parecia realmente preocupado.

Era Perdida: O Globo da MorteLeia esta história GRATUITAMENTE!