Capítulo 29 (Parte 1) - Confissões pre-mortem

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Celine acordou e não acreditou quando viu Dario em pé ao lado de seu cavalo - antes de desmaiar, a jovem tinha certeza que o capitão havia morrido. Sem conseguir conter a felicidade, tentou conversar com ele, mas o príncipe não deu bola. Estava absorto em pensamentos.

O comandante convocou todos. O grupo olhava para a Cordilheira. Apenas Dario encontrava-se de costas para as formações rochosas. Sério, pediu a atenção de todos.

- Bem, em verdade não preciso alertar vocês sobre o que nos aguarda. Entretanto, como capitão e comandante deste grupo, acredito ser minha responsabilidade dizer algumas palavras, principalmente após o acontecimento recente. Todos vocês possuem minha total confiança. Falo sério. Eu entregaria minha vida sem pensar duas vezes a cada um e a todos vocês. Esta confiança me enche de esperança. Se fossem outros, diria estarmos seguindo para a morte, no entanto, com vocês meu sentimento é outro.

"É impossível precisar o que encontraremos quando nos aproximarmos mais alguns quilômetros daqueles misteriosos picos, daquelas desconhecidas pedras. Mesmo assim, se mantivermos a coragem durante o trajeto, estou certo de que não perderemos nossa vida facilmente. Mantenham o espírito afiado, a visão concentrada e o coração preparado.

"Vamos juntos, amigos. E que a maldição dos seres milenares não nos atinjam."

Todos abaixaram a cabeça e ficaram em silêncio por um tempo. Até que Mondegärd se adiantou.

- Já sou um velho perante os humanos. Para muitos, estou vivendo mais do que deveria. Entretanto, graças a vocês ainda tenho utilidade para este mundo. Minha magia ainda é útil, assim como minha experiência. Se o pior acontecer e eu vier a morrer entre aquelas colunas de pedra, irei feliz e satisfeito, pois, não estivesse aqui, já estaria morto de qualquer forma.

Dario sorriu e os outros fixaram o olhar no velho mago. Gerolt aproveitou o silêncio e também falou:

- Como ferreiro, minha habilidade sempre protegeu homens e mulheres. Entretanto, não me engano: também serviu para feri-los e até matar, inclusive inocentes. Minhas armas e armaduras trouxeram vida e morte para este mundo. Entretanto, foi Dario quem enxergou em mim mais... mais que um simples ferreiro. Quando este jovem, com apenas 18 anos naquela época, adentrou meu estabelecimento e me chamou para lutar na Armada Oficial, não acreditei em suas palavras. Para provar seu ponto de vista, o desgraçado me atacou com sua espada e me fez defender-me com minha marreta. Esta mesma marreta aqui comigo. Não fosse Dario, nunca teria a oportunidade de participar de uma missão de tal envergadura. Se esta custar-me a vida, terá valido a pena. Sem remorsos, me atiro de corpo e alma nesta jornada. E, se tiver a chance, verei com meus próprios olhos, antes de se fecharem para sempre, o terror destas montanhas.

Todos impressionaram-se com a história de Gerolt. Vendo o desabafo do amigo, Isa inspirou-se e também falou, com a voz alta e apressada.

- Uma garota que deveria ter nascido homem. É como se referiam a mim. Desde pequena, minha altura e meu jeito intimidaram todos meus amigos. Até mesmo na Armada Oficial eu era desprezada pelos superiores, pois me temiam. Nosso exército aceita as mulheres apenas no papel. Nenhum homem ali tinha culhões o suficiente para aguentar Isa e seu machado. Eu tinha 26 anos e ele apenas 15. Muitos não gostavam de Dario por ele ser o príncipe, então quiseram lhe pregar uma peça: "Será que você consegue derrotar uma mulher?", perguntaram ao pobre garoto. Nunca vou me esquecer as palavras dele: "Homem ou mulher, fraco ou forte, minha espada não mede forças para vencer. E se for de minha alçada, assim será". Então, me chamaram para lutar contra o príncipe. Eles sabiam da minha força - eu ganharia de qualquer um deles. Mas o pequeno Dario não sabia. Seria uma vergonha perder para uma mulher e essa era a intenção daqueles idiotas.

"Eu aceitei pois queria ser amiga dos babacas. Mas não machucaria o príncipe. Há! Que idiota eu fui. Meu machado não passou perto do garoto uma única vez. No começo, segurei a força, mas depois uma machadada daquelas poderia decepá-lo facilmente. Mesmo assim, ele continuava a pular de um lado para o outro. Quando eu não aguentava mais levantar minha arma, ele acertou-me com a empunhadura da espada na barriga e eu caí.

"Três anos se passaram. Quando assumiu o comando da Armada, o jovem capitão foi me ver. Transformou-me na comandante de todos que me desprezavam. Fui a primeira mulher a chegar a um posto tão alto. Muitos não se conformaram, mas Dario bancou minha posição.

"Hoje, estou aqui. Escolhida a dedo por aquele que me viu pela minha competência e não pelo meu gênero ou pelo meu tamanho. Morrer nesta jornada será a maior honra da minha vida. Morrer como uma guerreira, reconhecida como tal, como sempre fora meu desejo."

Celine esforçou-se, mas não conseguiu segurar as lágrimas.

- Não é pra tanto, sua tonta... - reclamou Isa, emburrada.

Todos tiveram vontade de rir, mas ninguém se atreveu a fazê-lo, pois junto do sorriso, as lágrimas poderiam escorrer.

Era Perdida: O Globo da MorteLeia esta história GRATUITAMENTE!