Capítulo 30 - Quando os cavalos fugiram

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Apenas Dario conhecia o passado de Adriel e mesmo ele havia se esquecido dos detalhes, de modo que as palavras do guerreiro deixaram o capitão sentimental; não apenas as dele, mas a de todos os membros do grupo. Para os amigos de Adriel, era difícil imaginar um homem tão extrovertido carregando passado tão denso e amargo. Isa não entendia o porquê, mas sentia um grande aperto no peito, era inclusive a mais triste entre eles. De forma que se aproximou do guerreiro da espada longa e segurou suas mãos.

- Você é um grande guerreiro. Tenho certeza que sua irmã Celia estaria muito orgulhosa.

Os dois se abraçaram e Adriel chorou. A grandalhona também sentiu os olhos carregados, mas aguentou mantendo a pose.

Todos respeitaram o momento em silêncio, até que os dois se separaram e olharam para Dario, Adriel enxugando os olhos.

Um novo momento de silêncio seguiu. Esperavam alguma palavra de Celine – única a não falar nada. A garota, entretanto, apenas olhava para o chão e chutava o ar, mostrando desconforto. Entendendo a cena, Dario antecipou-se.

- Suas palavras foram importantes. Um coração e uma mente limpos são essenciais para uma batalha como a que nos aguarda. Então vamos!

Todos montaram novamente em seus cavalos e seguiram em direção à Cordilheira. Celine foi no mesmo cavalo de Dario, após o terrível incidente que ocorrera anteriormente. Segundo Meselson havia explicado, o ponto onde Meriedro desaparecera ficava logo após o fim da Floresta de Khunt. Tomando a direção oeste a partir do fim da floresta, em alguns quilômetros eles poderiam avistar uma fenda escura entre duas montanhas. Aquele era o caminho a tomar.

Dario ia na frente e Celine atrás. A moça aproximou-se do capitão.

- Dario.

- Oi, Celine.

- Queria pedir desculpas por não ter falado nada naquela hora.

- Não se preocupe. Eles só falaram porque tiveram vontade. Se você não sentiu essa necessidade, então não tinha que falar nada mesmo.

- Certo. É que, diferente deles, eu nunca tive nada de especial em minha vida...

Os olhos da jovem estavam tristes e expressivos. Dario, entretanto, olhava para a frente, sem entender os sentimentos da amiga.

- Eu também nunca tive. Talvez, diferente deles, nossa jornada ainda esteja apenas começando – sorriu o príncipe.

Celine sabia que o “nunca tive” de Dario era bem diferente do dela. Um jovem de 21 anos como ele comandando cinco oficiais graduados, entre eles dois experientes guerreiros, não parecia pouca coisa para ela. Sabia que era dois anos mais velha que Dario, e mesmo assim o máximo que conseguira na vida foi subir posições na Armada – e algo lhe dizia sua escalada ter mais a ver com sua aparência do que com seu mérito.

Mesmo mantendo tais pensamentos nebulosos, sorriu e se acalmou. Ficara feliz ao saber que o comandante não se decepcionara com ela.

Cavalgando sem trégua, seguiram por mais algumas horas, até o momento em que o cavalo de Dario levantou as patas dianteiras e empinou o corpo, quase jogando os dois na terra.

- Eia! – gritou Dario. – O que está havendo, Brigelou? – E virando-se para trás, alertou os outros para que parassem. Celine agarrou firme no príncipe enquanto o cavalo andava para trás. Isa e Adriel olharam-se e pensaram em falar alguma coisa, mas a hora não parecia muito propícia.

Passado o susto, Gerolt franziu a testa e confirmou:

- Os cavalos se recusam a seguir nesta direção.

- Com certeza sentiram a energia das montanhas à frente - pontuou Mondegärd. – Também posso sentir uma aura diferente cada vez mais intensa.

- Não tem problema. Soltemos os cavalos. A partir daqui seguiremos a pé. Faltam apenas alguns quilômetros até nosso destino.

Com pesar no coração, soltaram os cavalos, que correram em direção à Floresta de Khunt sem parar por um instante sequer.

Enquanto olhavam os cavalos fugindo descontrolados, pensaram: a volta não seria fácil. O pensamento, entretanto, não os perturbou, pois em verdade poucos esperavam realmente voltar para a capital.

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