Capítulo 50 - Batalha na grande ponte

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Isa deu um novo passo e as peças da armadura se moveram como se alguém tivesse surgido dentro dela. Não estavam mais apoiadas uma noutra, havia distância entre elas. Ainda assim, não era possível ver corpo ou mesmo qualquer coisa que fosse no interior do equipamento de batalha. A “armadura viva” andou sobre a ponte na mesma velocidade em que a guerreira se aproximava da porta.

Isa tirou o machado das costas e tomou posição de batalha, aproximando-se com cuidado. Quando entrou no alcance de ataque da armadura, esta sacou uma espada de suas costas e investiu contra a oficial. Isa levantou o machado e o som do aço se chocando com aço produziu um estridente ruído, fazendo Celine apertar os olhos.

A força da armadura era sobre-humana. Isa teve dificuldades para defender-se e recuou. A armadura abaixou o braço e o manteve abaixado, segurando a espada em posição de descanso.

Isa calculou a velocidade de ataque do inimigo e investiu contra o capacete usando seu grande machado. A espada levantou-se rapidamente e defendeu o golpe. Isa recuou uma vez mais.

O embate estava tenso.

“Ela é rápida. Temos a mesma velocidade. Se eu atacar, ela defenderá, se ela atacar, eu defenderei. A luta será decidida no contragolpe. E nesse quesito eu levo vantagem”, avaliou a guerreira, planejando o próximo movimento. Iria esperar a armadura atacar e então daria um passo para trás e atacaria o capacete. A armadura não teria velocidade suficiente para levantar a espada e defender-se enquanto aplicava um golpe.

O plano estava formado em sua mente, mas ainda assim sentia a excitação de uma batalha de vida ou morte. Um erro, por menor que fosse, significaria sua vida, o fim de sua existência; e quanto a isto ela estava certa.

- Ela vai vencer agora – previu Dario.

- Com certeza – concordou Adriel. – Ela vai contra-atacar e a armadura não terá tempo de se defender.

- Os golpes iniciais foram a chave para ela medir a força e a velocidade da armadura – explicou Mondegärd. – Isa pode ser esquentada, mas na hora da luta sabe muito bem como agir.

Celine olhava atenta para o embate, ouvindo os meninos, porém os comentários não a confortaram. A morte de Meriedro não deixava sua cabeça.

Com a estratégia definida e em mente, Isa deu um passo à frente e – como esperava – o inimigo executou o mesmo ataque, de forma mecânica.

- Agora um passo para trás – narrou Dario.

Mas Isa não se esquivou.

- Não consigo me mover! – gritou a guerreira, imóvel na ponte.

A espada desceu na diagonal e, em golpe violento, destruiu a armadura da guerreira. O impacto atirou Isa na piscina de veneno.

- Deuses! – berrou Celine, fechando os olhos.

Adriel, Dario e Mondegärd correram para a borda. Isa, com suas próprias forças, subira no chão de pedra da primeira parte da sala.

- Você está bem, Isa?! – gritava Adriel, aproximando-se.

Deitada de barriga para cima, Isa tossia e tremia. O sangue tingiu o peitoral da armadura que usava. Os três guerreiros se aproximaram.

- Não encostem... – falou ela. – Estou cheia de veneno.

- Calma, Isa – falou novamente Adriel, sua voz tremia, assim como o corpo da guerreira. – Você vai ficar bem.

A oficial, entretanto, maneou a cabeça de um lado a outro.

- Deixem-me falar! Sinto que tenho pouco tempo...

- Não diga isso, Isa – interrompeu-a Adriel.

Celine não se aproximara. Seu rosto vermelho, por onde escorriam as lágrimas, era tapado pelas duas mãos.

- Falo sério... Me ouçam... Dario, eu fiquei paralisada. Senti que algo me tocou e me paralisou. Por isso não me esquivei...

O relato foi interrompido por uma forte tosse. Depois de limpar a boca, Isa prosseguiu:

- Agora, Adriel... Adriel... – falara baixinho. – Por favor... chegue perto...

A voz da mulher parecia desaparecer.

Adriel aproximou-se e Isa levantou a cabeça, tocando seus lábios nos do companheiro.

- Aqui... aqui está seu beijo. Espero que... tenha sido bom...

E fechou os olhos.

- Isa! Isa! – gritava Adriel, mas Isa não lhe respondeu e nem falou mais nada. – Nãããooo!!! – berrou o oficial, fora de si. Em seguida, levantou-se e, sacando sua espada gigante, foi em direção à ponte.

Dario atirou-se sobre ele e o segurou no chão.

- Deixe-me acabar com aquela coisa! Ele matou a Isa! Ele matou ela!

O príncipe olhava fixamente para o guerreiro debatendo-se no chão feito um moleque mimado.

- Eu sei. E nós vamos vingar a morte dela, mas não dessa forma. Se você for lá assim, será apenas mais um morto.

- Não me importo! Solte-me ou te mato!

Preocupado com a situação, Dario ganhou posição nas costas de Adriel e o imobilizou. Em seguida, o capitão olhou para Mondegärd e acenou positivamente com a cabeça. Antes que pudesse se debater muito mais, Adriel acalmou-se repentinamente e dormiu.

- Obrigado – disse Dario ao mago.

- É melhor assim – falou o velho. – Não há desespero que uma magia do sono não resolva.

Dario levantou-se e olhou para a armadura, imóvel e soberana sobre a ponte.

- O que pode ter acontecido? – falou para si mesmo. Parecia não ter percebido o que ocorrera. Tudo fora rápido demais.

Celine chorava copiosamente. A amiga – sempre a repreendendo – era como sua irmã mais velha. Aquela voz cheia de pompa e recriminação nunca mais seria ouvida. E isso era muito triste.

Sei que parece estranho eu ter escolhido justamente este capítulo para fazer uma homenagem à minha companheira Rafaela, mas hoje completamos 7 anos juntos. E não consigo pensar outra forma de agradecer pelo apoio dela que não fosse no próprio livro que ela ajudou a acontecer. Além do mais, ela foi a primeira a se revoltar comigo por conta do ocorrido neste capítulo. Obrigado por tudo Rafa, pelo apoio e carinho durante tanto tempo juntos! 

Era Perdida: O Globo da MorteLeia esta história GRATUITAMENTE!