Capítulo 61 - Apenas peões

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- Como?! Você... — Adriel ficara sem palavras.

Em sua frente, estava o Recuperador tido como morto, cujo esqueleto estava no salão principal até alguns minutos atrás. O homem era grande — maior mesmo que Isa —, robusto, o cabelo bem aparado, a face corada e a roupa de tecido simples impecável, limpa e sem nenhum sinal de maus-tratos.

- Realmente acharam que aquele esqueleto era eu? Idiotas! — gritou Meriedro. Depois sorriu, gabando-se. — Estou impressionado por conseguirem chegar até aqui passando por todas as minhas armadilhas... Pensando bem, vocês foram muito úteis: fizeram exatamente o que eu esperava.

Dario entortou a cara. E, sem tocar no artefato, voltou para a parte coberto da sala oval.

- Como assim? O que quer dizer com isso? — Essa não era a única dúvida em sua mente no momento, mas lhe parecia ser a mais importante.

- Esperava mais de você, príncipe Dario — sorriu o Recuperador. — Quando vi você e seus comandados aproximando-se da Cordilheira, tive certeza de que meu plano funcionaria. — E depois de um tempo em silêncio, prosseguiu: — Nunca imaginei que mandariam alguém de sua envergadura nesta missão suicida. Seu pai nunca ouviu sobre as histórias deste lugar? Por acaso o rei de Mylstain não sabia que aqueles que se aproximam da Cordilheira ficam loucos ou desaparecem para sempre? Ou será que ouviu e não se importou?

- O que isso interessa?! — retrucou Dario, levantando o tom da voz.

Meriedro cerrou os olhos e bufou.

- Você está certo...

- Como conseguiu passar pelo Holmër? — perguntou Celine, intrometendo-se na conversa.

- Ainda não entendeu, guria? Eu! Eu amaldiçoei Holmër e Aelinne. Eu, usando o poder do globo, criei o Espelho de Meriedro e o enfeiticei com o poder de refletir os medos do espírito para quem o pegasse dentro da sala. Eu criei o gromav e armei todas as armadilhas! Tudo para proteger o artefato de ladrões como vocês!

As palavras do novo dono do globo atingiram todos como um raio. "Então foi... foi ele o responsável por tudo o que passamos?", custava a acreditar o príncipe.

- Mas você foi chamado aqui para recuperar o artefato! — rugiu Adriel. Sua ira começara a transbordar após ouvir a realidade. — Todos acharam que estava morto!

Irritado, Meriedro fechou o punho com força e depois gargalhou.

- Eu sabia! Ainda não entendeu?! Sabia que Meselson estava me seguindo! Eu precisava de cobaias e sabia que ele as arranjaria para mim! São vocês, pobres coitados! Não passam de peões em um jogo muito maior do que imaginam!

O Recuperador parou por um instante e retomou o fôlego.

- O que me intriga é o fato de que os lacaios do mago sabiam que eu os observava. Mesmo assim o mago os mandou para cá. Com certeza Meselson também tem interesses escusos com o globo.

Mondegärd tocou o ombro de Dario e o príncipe respondeu com um sinal afirmativo. "Se ele está falando a verdade, o que Meselson quer afinal?", pensaram os dois. Indiferente, Meriedro continuou seu discurso, divertindo-se com a ingenuidade do príncipe e os outros.

- Mas Meselson estava certo. Eu fui contratado por nada menos que Enthrall, o rei de Dehör em pessoa, para recuperar a pedra. Não me perguntem como ele a encontrou, mas me enviou para a Cordilheira e me prometeu riquezas além da conta se conseguisse levá-la para ele. Fiquei impressionado quando descobri que o local não era protegido e que o Ishtar estava esperando alguém para justamente levá-la daqui.

"Entretanto, nem todas as riquezas do mundo podem se comparar ao poder do globo. Ele amplia nossos sentidos, aumenta nossa força, nossa velocidade e nos concede poder inimaginável. Testei seus poderes por muito tempo e até agora não encontrei limites para sua capacidade. Quando o temos, nossas possibilidades são infinitas".

- Então foi por isso que nunca retornou. Preferiu permanecer aqui em posse da esfera — concluiu Dario.

- Exatamente, príncipe. Mas não foi simples. O globo não revela seu poder a todos. Ele me negou por muito tempo. Não passava de uma esfera de vidro comum. Apenas com muita insistência o globo me revelou suas reais capacidades. Mas agora... — Meriedro esticou o braço e o globo deixou a plataforma e flutuou até sua mão. Sorrindo, pressionou a relíquia e finalizou: — Mas agora ele me pertence e seu poder é meu para fazer o que quiser. E se acham que podem tirá-lo de mim, então não passam de imbecis e ignorantes.

- Mas por que o senhor nos chamou de cobaias? — perguntou Mondegärd.

- Ora, o Ishtar está certo quando diz que outros antes de mim tentaram levar a relíquia daqui mas não conseguiram. O medo de perde-la é demasiado grande. Por isso, precisava certificar-me de que as armadilhas instaladas no templo serviriam como medidas protetivas contra os gatunos à contento. Felizmente, vocês chegaram em boa hora, pois provaram que guerreiros capacitados poderiam vencer os desafios que preparei.

Todos encontravam-se estarrecidos, porém, o comandante da trupe parecia o mais alterado. "A chance de sairmos vivos deste lugar levando a relíquia é pequena — muito pequena. Se Meriedro já era um aventureiro incrível, de renome conhecido em vários reinos, imagine sua capacidade agora em posse de artefato de poderes tão únicos e impressionantes", ponderava Dario. Levando todos esses pontos em consideração, o príncipe pensou rapidamente em várias hipóteses até chegar a uma conclusão.

- Você está certo, Meriedro. Não temos a intenção de lhe roubar a esfera. Viemos pensando que ela não pertencia a ninguém, entretanto, se ela já tem dono, não nos comportaremos como ladrões ou gatunos. Por favor, permita que voltemos para nosso reino em paz e vamos esquecer o que aqui ocorreu.


Dario, em seu íntimo, estava convencido de que a melhor decisão era abandonar a missão e salvar seus amigos, mesmo que para isso tivesse que desistir de tudo pelo qual lutaram até ali.

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