Capítulo 18 - É tudo culpa dela

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Isa e Adriel levaram o velho mago sozinhos até a cidade. A maioria da multidão já tinha sido dispersada e voltara para suas casas e para suas vidas. Com grande rapidez, subiram o moribundo escadas acima e passaram pelo quarto da mulher-peixe; no caminho, receberam ajuda de Jamen para deitar Mondegärd na cama do quarto ao lado.

- Essa aí parece bem... – pontuou Isa, incomodada com o aspecto saudável da kanayr.

- Ela está recuperada. Não sei quanto tempo vai durar, mas ela está bem – Jamen parecia entusiasmado com a melhora da mulher-peixe.

- É tudo culpa dela... – irritou-se Isa.

Adriel foi até a amiga e a segurou nos braços.

- Não é hora para isso, Isa. Temos que fazer alguma coisa com o Mondegärd – e alguma coisa que um médico não pode –, ou ele vai morrer de verdade.

Por mais que pensassem, entretanto, nada lhes ocorria.

- Droga! – Isa amargurava-se cada vez mais. Revoltara-se com Gerolt anteriormente, mas provavelmente ele estaria certo ao final. Não havia nada que pudessem fazer.

O soldado ferido começou a tossir e se afogar com o sangue. Sua face estava pálida e sua pele gelada. Adriel o virou de lado. Vendo a cena, Isa foi até o corredor, pois ficar lá a estava deixando enjoada. Não era o sangue ou as feridas abertas, mas a impotência que lhe dava náuseas.

Isa andava de um lado ao outro quando escutou um grito do quarto ao lado.

- Ei! O que está fazendo?!

A voz era do guarda que ficara com a mulher-peixe. Em seguida, um barulho de água molhando o chão de madeira chamou a atenção de Isa, que foi ver do que se tratava.

- O que está fazendo, sua... – começou a reclamar a guerreira, mas parou quando notou a kanayr caída no chão e se arrastando para se mover.

- Ela se atirou no chão! – explicou, aturdido, o guarda.

Adriel e Jamen apareceram em seguida.

- O que está acontecendo?! – quis saber o amigo de Isa.

A mulher caída olhou para cima, exibindo seus grandes olhos azuis e expressivos. Depois, apontou para o lado esticando o braço esquerdo e o dedo indicador. Por fim, fez uma careta e contraiu e esticou o braço algumas vezes, como se estivesse chamando alguém.

- Ela está chamando alguma coisa ao lado... – tentou adivinhar Jamen.

- Mas não tem nada ali na parede, louca! – ralhou Isa. A mulher-peixe a incomodava cada vez mais.

- Espere! – exclamou Adriel, passando o braço à frente de Isa. - O homem ferido?! Você está chamando ele?!

A kanayr das águas sorriu e acenou euforicamente com a cabeça. Depois, continuou fazendo movimentos com o braço, chamando-o.

Adriel correu até o quarto ao lado, mas Isa bloqueou seu caminho antes que conseguisse entrar.

- Está louco?! O que está pensando em fazer?

- Vou levar ele para lá.

- Não vai, não. Você confia nessa...

- Não, Isa. Não confio, mas se ela pode fazer qualquer coisa, é melhor que deixar ele aqui cada vez mais pálido. E agora saia da frente!

- Calma. Vou te ajudar... – a mulher mudou de opinião.

Adriel sorriu e os dois levaram o semivivo para o outro quarto.

- Aqui está ele. E agora? – perguntou Isa, enquanto colocava ele deitado ao chão em frente à banheira de cerâmica. O sangue tingia a madeira de vermelho.

A mulher-peixe tinha voltado para a água. Fazendo movimentos com o braço de cima para baixo, pediu para que aproximassem Mondegärd dela. Sem alternativa, a dupla obedeceu e levaram o corpo dele para bem perto do recipiente.

- E agora?! – gritou Isa.

Gesticulando, a mulher-peixe os fez se afastar. Depois, esticou os dois braços e fechou os olhos. Respirou profundamente e começou a cantarolar uma canção. No ritmo da melodia, a água da banheira começou a se mover e flutuar formando serpentes líquidas a dançar e se contorcer no ar.

A cena impressionou os quatro oficiais na sala, que permaneciam sem emitir som algum.

Vagarosamente e ritmadas, as correntes de água penetraram no corpo de Mondegärd, que gemeu e se curvou para cima. Aos poucos, entretanto, foi retomando sua posição anterior. Enquanto isso, a água parecia unir-se ao seu corpo em perfeita harmonia.

Os olhos da kanayr se abriram e revelaram o globo azul como a lua cheia tingida pela cor do céu da manhã. A mulher abriu os braços e encerrou a música repentinamente. As águas flutuantes caíram dentro da banheira e sobre o ferido, que encheu os pulmões de ar e abriu os olhos esbugalhados.

Suas feridas estavam cobertas de músculos e pele e nenhuma outra gota de sangue pingou de seu corpo.

- Pelos deuses! – gritaram os quatro.

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