Capítulo 16 - Assassinato na hospedaria

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Na taverna, a situação era menos perigosa, mas igualmente dramática. Gerolt, Isa e Adriel passaram minutos discutindo se deveriam ficar lá esperando por um inimigo que provavelmente não teria coragem de aparecer ou se deveriam ir ajudar o outro grupo na busca pela Flor da Meia-Noite.

- A opinião de vocês não interessa – retrucou, sem paciência, Gerolt. – Esta empreitada só dará resultado se obedecermos o capitão. E ele foi claro em sua ordem.

Mesmo irritados pelo tom grosso de Gerolt, Adriel e Isa ficaram sem argumentos. Desobedecer o Mestre Comandante estava fora de questão. O respeito pela hierarquia era um dos primeiros ensinamentos na escola militar do reino e Dario já os comandava por três anos.

Em poucos minutos chegaram os dois guardas.

- Não encontramos nenhuma flor ou folha na bagagem do comerciante, a não ser comida. Tentamos falar com ele também, mas ele não diz nada. Não quer admitir que levava a mulher-peixe – reportou Jamen.

- Claro! Ele sabe que será preso... – falou Adriel.

- E agora? – quis saber o outro guarda.

- Temos que esperar o comandante retornar com a Flor. É nossa única alternativa... – respondeu Isa, impaciente com sua atual missão: esperar e esperar...

A espera da oficial, entretanto, não durou muito. Vidro se quebrando foi ouvido em um dos quartos ao lado. Gerolt – também incomodado com a espera – se prontificou:

- Vou ver o que é isso.

- Também vamos – responderam Isa e Adriel. – Guardas, vocês dois ficam aqui.

Os três foram para o corredor e andaram com cautela. Antes de chegarem ao próximo quarto, o trio foi surpreendido por dois homens encapuzados portando uma espada fina e curva – formando um semicírculo, como um gancho. Era possível ver apenas os olhos daqueles homens, pois o resto era coberto por uma série de panos cor de palha rasgados nas pontas, que encobriam de suas cabeças até os pés. De dentro do emaranhado de panos saía apenas a lâmina semicircular de suas armas.

- Assassinos! – gritou Gerolt, armando-se de sua grande marreta.

O movimento foi seguido por Isa, que desabotoou das costas seu machado de duas mãos, preso por uma cinta de couro. Adriel também empunhou sua longa e fina espada, com quase dois metros de comprimento – apenas na lâmina – que levava presa às costas pelo mesmo aparato de couro usado por Isa.

Os assassinos interromperam seu movimento ao se defrontarem com os guerreiros. Pararam por alguns segundos. Os três oficiais também não se moveram.

Em um instante, um dos assassinos deixou cair algo no chão.

- O que... – notou Adriel, mas não rápido o suficiente para impedir uma grande cortina de fumaça que tomou todo o corredor.

- Meus olhos! – berrou Isa, andando para trás. A vista parecia estar sendo queimada por ferro em brasa.

Aproveitando-se do descuido da guerreira, no momento seguinte, um dos inimigos se abaixou e investiu contra a mulher. Gerolt, com um dos olhos pressionado e o outro atento ao movimento dos encapuzados, percebeu o ataque traiçoeiro e fez um arco no ar com sua marreta, atingindo a cabeça do assassino na altura dos joelhos de Isa. Cérebro, sangue e ossos formaram uma sopa pulsante no chão de madeira da hospedaria.

O barulho da madeira se partindo com a marretada de Gerolt assustou Adriel, que olhou para ver o homem morto a seus pés. Sua atenção falhou por meros segundos, tempo suficiente para receber o golpe do outro assassino que saltara no ar e investira diretamente contra o pescoço do guerreiro de cabelos compridos.

A espada em forma de gancho teria decepado Adriel não fosse parada no ar pelo machado de Isa. Com os braços estendidos, a mulher segurava a lâmina do assassino a poucos centímetros da face do companheiro. Vendo que seu ataque havia falhado, o homem coberto de pano agachou e deu uma rasteira em Adriel. Este enfincou a grande espada na madeira do chão para permanecer em pé.

O assassino saltou para trás. A fumaça se esvaía e era possível ver novamente com alguma clareza o ambiente.

- Desista. Você não poderá nada contra nós! – ameaçou Adriel, levantando a espada com as duas mãos e a apoiando no ombro.

Intimidado ou não, o homem encapuzado entrou novamente no quarto de onde havia saído e saltou pela janela. Todos correram em seu encalço. O assassino estava em uma ruela estreita formada entre o bar e outra casa.

Isa ia pular quando foi impedida por Gerolt.

- Solte-me! Vamos pegar o desgraçado! – rugiu a mulher.

- Com esse seu machado de lâmina dupla você nunca conseguirá alcançá-lo nessa rua estreita. Infelizmente, nós três lutamos com armas grandes e pesadas... – explicou Gerolt.

- Vou pela porta da fren... – começou a falar Isa, mas parou quando se lembrou da multidão. – Então vamos apenas deixá-lo ir?!

- Infelizmente, é o que podemos fazer, Isa – conformou-se Adriel. – Sei que o capitão não gostará nem um pouco de não termos parado os assassinos, mas é o que podemos fazer.

- Senhores! Venham aqui! – Jamen gritou do corredor.

Todos foram conferir o motivo do chamado.

- Esta não é a Flor da Meia-Noite? – perguntou o soldado de Menfatz, mostrando a eles uma muda de flor com folhas verdes e pequenas bolinhas brancas sob elas.

- É essa mesma! Me dê aqui! – Isa agarrou a planta da mão mole do soldado.

Correu até a banheira de cerâmica e mergulhou ambas as mãos dentro da água segurando a flor e a espremeu com força. Muitas bolhas se formaram e agitaram o líquido límpido. A mulher-peixe, que sobrevivia com dificuldade em seu interior, abriu a boca e sugou com força o líquido para dentro de seu corpo.

A jovem de cabelos negros e cauda recuperou a cor e continuou a respirar todo o ar vindo das bolinhas espremidas por Isa. A guerreira apertou e espremeu o máximo que pode, até não saírem mais bolhas.

A água parecia de outra cor e a kanayr respirava menos eufórica.

- Funcionou! – comemorou Adriel. – Conseguimos!

- Só que não vai durar muito pelo jeito.

- Não corta meu barato, Isa!

- “Seu barato” é muito efêmero. Não me culpe...

- Parem de brincar, vocês – ordenou Gerolt, irritado. – Aquele assassino não terá coragem de voltar aqui tão cedo. Vamos atrás do capitão ajudar a trazer mais flores. Vocês dois – apontou para Jamen e o outro oficial – revistem o assassino novamente e tentem encontrar mais flores ou alguma informação de onde ele vem. E reforcem a segurança. Chamem mais guardas.

- Entendido!

- Finalmente! – vibrou Isa. – Vamos sair desse lugar!

Era Perdida: O Globo da MorteLeia esta história GRATUITAMENTE!