CINQUENTA E QUATRO: DEREK

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Todo o drama do Nicholas em relação ao que estava acontecendo com a Yuna estava me deixando extremamente cansado. Eu tentei contatá-lo várias vezes, e eu sempre caia na caixa, até que eu decidi ligar pelo celular da Yuna. Foi aí que ele atendeu.

Por que você está me ligando? você já não conseguiu o que queria? — a voz dele soa um tanto irritada.

Sou eu. — respondo. — O Derek.

Consigo ouvir sua respiração pesada, eu sei que ele está chateado, mas eu não me sinto nenhum pouco culpado ao ponto de sentir a necessidade de pedir desculpas.

Ata. — ele responde. E no fundo, após a voz dele, eu consigo ouvir a voz de outro garoto perguntando algo que ele responde em seguida. — Você escolhe, me impressione.

Eu tentei te ligar, estava dando caixa. — argumento. — Onde você está?

Eu bloqueei o seu número em meu celular, e por que você se importa em saber onde eu estou? — sua risada soa sarcástica. — Você não está com a Yuna em seus braços? Faça proveito disso, Derek.

E ele desliga.

Eu preciso admitir que nesse exato momento algo cortou o meu coração de forma profunda, me fazendo sangrar. Eu estava com a Yuna porque ela precisava de alguém para estar com ela naquele momento, sua melhor amiga estava enrolada demais cobrindo as faltas dela no colégio.

Yuna estava triste pela perda do bebê que sequer era meu, e pior ainda por ter seu tornozelo engessado.

— Como ele está? — ela pergunta. Está deitada em sua cama, tem ficado assim o tempo todo. Seus cabelos em um preto misturado com azul estão soltos, e ela usa um shorts pijama em cor rosa que fica um pouco acima de suas coxas, uma blusa de tecido fino em cor branca compõe a parte de cima, e até assim eu acho ela extremamente atraente.

— Chateado. — eu respondo após devolver o celular para ela.

Os pais da Yuna aceitaram minha presença numa boa, isso porque o pai dela, na verdade é padrasto, então toda a decisão vinha de sua mãe que acabou acreditando na história de que ela havia caído de bicicleta enquanto estava comigo em uma praça qualquer pela cidade.

— Vocês são amigos, ele vai voltar a te procurar depois. — ela me estende a mão e um sorriso se forma em seus lábios. — Eu estou tão feliz por você estar aqui comigo.

E eu estou tão feliz por tê-la comigo. Dentro de mim algo sentia a necessidade disso, de estar com ela e de estar com ele, eu gostava dos dois, e esse era o meu maior problema.

— Eu espero que sim. — eu aceito sua mão que me puxa até a cama. Agora está calor, mas mesmo assim eu permaneço com um moletom azul e uma calça jeans. — E eu também estou feliz por estar aqui. — eu me sento do seu lado, com as costas encostada na cabeceira da cama. — Embora a razão disso não seja uma das melhores, eu estou extremamente feliz.

— Podemos esquecer isso, por favor? Pelo menos durante hoje, durante essa noite. — ela me pede, e então aperta sua mão na minha.

— Tudo bem, me desculpe. — eu respondo. — Quer ver algum filme? Tem alguns interessantes na Netflix.

— Contanto que não seja terror ou seus filmes de ação, eu aceito. — Yuna pega o controle da minha mão. — Eu sempre quis assistir esse aqui. — ela seleciona um filme, o nome é Já estou com Saudades. — Pela sinopse, o filme é sobre duas amigas, uma se dá bem na vida, se casa, tem um bom marido e dois filhos, a outra embora tenha um bom marido também, não consegue alcançar tudo o que almejou e não consegue engravidar.

— Isso é clichê. — ela deita a cabeça no meu ombro após eu falar. — muito clichê.

— Não é. — ela ri enquanto olha para cima, para os meus olhos. — Parece ser legal, vamos assistir. Por favorzinho. — ela faz beicinho.

E eu me dou por vencido.

Como ela não pode levantar, eu me encarrego da missão de ir até a cozinha para preparar a pipoca e pegar os refrigerantes. Nesse caminho eu encontro seu padrasto, sentado no sofá da sala assistindo o jornal, ele não fala nada comigo, está distraído demais com as informações da garota do tempo que diz que teremos bons dias de chuva pela frente.

Sua mãe está na cozinha, sentada na mesa com uma xícara de chá em mãos. Ela analise algumas revistas de moda, e então quando eu me aproximo, ela me pede uma opinião sobre o seu desenho. Ela é estilista.

— Qual está melhor? Em rosa ou preto? — ela estende os desenhos para mim. — Eu sei que vocês garotos não entende de moda, mas eu preciso de uma visão como a sua, jovem. Imagine que você está afim de uma mulher, como você gostaria de vê-la vestida?

— Eu.. — é o mesmo desenho, e talvez o meu favoritismo pela cor preta tenha me levado a escolhe-lo. — O preto é mais bonito. — eu respondo, com um sorriso nos lábios enquanto devolvo os papéis.

— Obrigada. — ela diz. — O que veio fazer aqui? A Yuna está precisando de alguma coisa? Eu já disse para você ficar a vontade, Derek. É ótimo saber que ela tem um namorado para cuidar dela nesse momento, eu não acredito que aquela garota torceu o tornozelo caindo de bicicleta, ela sempre andou tão bem. — ela passa os cabelos negros e ondulados para trás dos ombros.

Ela usa a palavra namorado, e eu não a corrijo por isso.

— Nós vamos assistir um filme e ela pediu para eu preparar uma pipoca e pegar refrigerantes. — a Yuna havia me dado as instruções de tudo pela casa, portanto não é difícil encontrar o armário com os pacotes de pipoca, após abri-lo, eu coloco no microondas e espero pelos estouros.

— Tudo bem, eu estarei em meu quarto se vocês precisarem de alguma coisa, muito obrigada por cuidar dela, Derek. Eu não sei como lhe recompensar, você tem sido um bom rapaz fazendo isso. — ela recolhe os papéis e as revistas e então me deixa sozinho ali, esperando os estouros que demoram para acontecer.

Ficar sozinho me faz lembrar do Nicholas, e consequentemente do garoto que falou com ele do outro lado da linha. Quem era aquele garoto? E o que o Nicholas estava fazendo com ele?

Talvez eu tenha pisado na bola. Ou não, a Yuna precisava de mim. Ele deveria entender, se ele realmente fosse o meu amigo, ele me entederia. O que aconteceu em Vegas não interfere no que somos, eu não pertenço ao Nicholas, ele não tem direito algum de me privar das coisas, eu gosto da Yuna, e se antes eu falei que deixaria ela por ele, hoje eu me arrependo, porque isso é uma mentira. Eu não trocaria ninguém por ninguém, eu preciso dos dois.

Os estouros que começam me trazem de volta a realidade. E após despejar toda a pipoca amanteigada em um recipiente de vidro, eu estou de volta ao quarto com duas latas de cola em mãos.

— Acho que estamos prontos. — mordo meus lábios após deixar as coisas sobre a cama, eu me sento logo em seguida, e então a Yuna se ajeita entre minhas pernas, mantendo sua cabeça em meu peitoral. — Acho que você já pode dar play.

E ela dá.

Sequer chegamos até a metade do filme e ela adormece ali, aconchegada em mim após nossas mãos se encontrarem várias e várias vezes dentro da travessa de pipoca. A sensação era boa e estranha ao mesmo tempo, eu estava me segurando para não beija-la durante as oportunidades, eu precisava me decidir entre eles dois o mais rápido possível, e eu sabia que alguém sairia machucado por causa da minha decisão.


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