Episódio Seis: Ano Novo

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TAEHYUNG

Por motivos óbvios eu e Jeongguk seguimos pelas escadas, mesmo estando no vigésimo andar. Ele não disse nada sobre o que houve - depois que parei de chorar feito uma criança -, nem perguntou sobre o que falei depois de ter salvado minha pele de novo, apenas seguiu em silêncio do meu lado, lançando-me um olhar vez ou outra, parecendo com medo de perguntar sobre o último incidente e eu mesmo não sabia como explicar sem soar como um lunático. Nessa trajetória​ silenciosa quase tropecei e rolei escada abaixo uma porção de vezes, depois da quinta vez Jeongguk passou a segurar minha mão, para garantir que eu chegaria inteiro até o saguão do hotel. Ele não disse nada sobre, somente pegou minha mão, entrelaçando nossos dedos, como se não fosse nada demais.

O agradecimento ficou entalado na garganta, não tinha certeza se falar naquele momento me colocaria em outra crise de choro vergonhosa. Vontade de chorar pelo menos não faltava.

— O que tem de errado com você? — Jeon perguntou lá pelo décimo andar. Ele ainda não tinha me olhado por mais de dois segundos, parecia nervoso sobre isso, mas ao menos sua mão não largou a minha.

— Não... — respirei fundo — Não acho que vai acreditar em mim.

— Não tenho porque duvidar.

Eu o olhei desta vez. Não havia mentira nos olhos dele, mas isso não significava muita coisa, realmente. A maioria conseguia permanecer completamente crente até ouvir a história toda, talvez por isso sempre foi um segredo de família. Exceto pra minha mãe, é claro.

— Fui amaldiçoado. Quando bebê. — nenhuma risada ou olhar estranho. Era um bom começo.

— Como aconteceu? — ele se sentou no degrau, me puxando com ele, para que sentasse ao seu lado.

— Existe um... culto. Eu morava numa vila minúscula no interior e lá... havia um culto estranho que chamavam de "Filhos do Universo", eles têm algo de abençoar todos os recém nascidos da vila. Quando um bebê nasce, tem de ser apresentado pelos pais ao sacerdote, para que ele seja abençoado e o universo proteja a vida da criança. Eu pesquisei um pouco e a maioria dos idols ricos e chaebols da Ásia saíram da minha vila, entende? É um lugar minúsculo, mas provavelmente tem metade do PIB do país, e tudo sobre esse "culto" é meio escondido, as pessoas no máximo suspeitam que tem algo estranho. Meu pai era de fora, ele sempre achou isso bobagem. E a mamãe tinha medo, porque parecia que era um tipo de pacto. Mas ainda assim ela me levou até lá quando nasci, meu pai deveria ir também mas... ele ignorou todos os avisos.

Parei um momento para olhá-lo novamente. Se Jeongguk não estava prestando atenção, ao menos fingia muito bem, seus olhos mal piscavam.

— Enfim, quando o sacerdote foi falar a tal benção, ele ficou com muita raiva da falta de fé da minha mãe e por meu pai nem ter aparecido. Ele começou a gritar muito, a mamãe disse que ele ficou vermelho e depois roxo e talvez tenha sido pelo estresse, mas... Ele caiu morto no chão. Uma parada cardíaca fulminante, ninguém pode ajudar. Os outros líderes do culto disseram que aquilo era um sinal de maldição e me jogaram um tipo de praga. Eu morreria quando alcançasse a idade que minha mãe tinha quando nasci, pra pagar a ofensa ao universo. Ela tinha 23 anos na época. E fiz 23 hoje.

Aguardei um momento. Das últimas duas vezes que contei essa história a reação foi entre rir do quão maluco soava até chorar pela minha morte inevitável. Jin-hyung passou pelos dois casos ao mesmo tempo, Hoseok riu meio sem graça, achando que eu fiquei maluco de vez e JiSoo chorava como um bebê, o que na época foi bem surpreendente, eu sempre achei que ela não gostava muito de mim.

— Eu... pareço maluco? — perguntei, quando Jeongguk não esboçou nada. Ele não parecia achar que eu estava mentindo, mas havia um olhar de dúvida bem óbvio ali.

Lucky: e o Coelho da SorteOnde histórias criam vida. Descubra agora